segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Entrevista sobre Isabel - Parte III

Kangas – Embora alguns leitores tivessem já em mente que Vicente poderia acabar da forma como acabou, nenhum de nós o imaginou da forma como realmente aconteceu. Tu sempre fugiste do previsível e fácil criando sempre algo diferente e com muito mais beleza e complexidade. Como consegues criar uma surpresa em cada capítulo?

Inês – Evitando o mais que posso a previsibilidade sem tornar o trabalho em algo rebuscado. O livro ter acabado da forma que acabou não foi totalmente uma surpresa, mas eu tentei fugir daqueles finais mais cliché. Eu gosto de livros que me desafiem, que me mantenham a pensar e a pedir mais, seria complacente da minha parte, como escritora, fazer algo inferior a isso. Isto significa que eu escrevo o que eu quero que aconteça, eu não escrevo para agradar aos leitores. Parece egoísta eu sei …

K – Este foi sem sombra de dúvida um final magnífico para esta história. Não só traz um pouco de “pimenta” a todo o livro como cria um certo suspense deixando o leitor a pensar “o que acontecerá a seguir?” Foi este o final que sempre imaginaste para Vicente?

I – Oh meu Deus eu nem quero pensar em todos os cenários diferentes que imaginei para o final deste livro! Foram mesmo muitos. Por momentos andei obcecada que alguém teria de morrer. Então percorri a lista das personagens e concluí que não podia matar ninguém. Eu não queria um final pesado e acima de tudo não queria dar a Vicente o "prazer” de ter um catalisador fatal. Eu penso que não queria que as pessoas sentissem pena de Vicente, eu queria que ele se tornasse numa personagem respeitável por si próprio. Penso que se Vicente fosse real teria gostado deste final, algo diferente poderia ter sido injusto ou irrealista.

K – Serão aquelas “Telas Brancas” um mote para a tua próxima obra?

I – Novos começos ... quem sabe?

K – Almeida de Andrade. Escolheste o nome de dois grandes escritores portugueses (Almeida de Garrett e Eugénio de Andrade) para o pseudónimo de Isabel. Terá sido uma espécie de homenagem a estes dois grandes nomes da Literatura Portuguesa?

I – Sim, claro. Não posso descrever por palavras o quanto Almeida Garrett me influenciou. Um escritor tão talentoso e versátil: prosa, poesia, drama. Ele é o Romântico da literatura portuguesa. Eugénio de Andrade é uma alma pura e a sua poesia criou uma certa ingenuidade que parece ter combinado bem com todo o livro. Quando comecei a escrever este livro, ele ainda não tinha falecido ...

K – Tenho a certeza que a publicação deste livro estará obviamente nos teus planos, mas sei também que é muito difícil entrar neste mercado. Na tua opinião, porque será tão difícil para uma boa história como a tua entrar no mercado quando vemos tanta coisa sem qualidade á venda nas livrarias?

I – Uma “boa hostória" é um termo relativo. Em Portugal não existem muitos leitores. E por leitores eu denomino aquelas pessoas que lêem mais de seis livros por ano. Ler é ainda visto mais como uma actividade de férias e com o crescimento da portabilidade da música, filmes e a Internet, a leitura está a perder adeptos. Por isso quando te estás a dirigir a uma audiência que procura um passatempo ligeiro e rápido, podes esperar que queiram ler histórias complexas? Não podes, e os editores sabem disso. Existem alguns livros de boa qualidade no mercado, de vez em quando um deles torna-se num bestseller, mas acima de tudo eles são livros que não tocam ninguém mas que também não desapontam o leitor. Nessa perspectiva "Isabel" é quase impublicável e se for publicado, duvido que seja por uma editora poderosa capaz de fazer dele um bestseller.

K – Antes de me despedir gostaria de te colocar uma última questão. Para quando teremos um sucessor para "Isabel"?

I – Não sei quando, mas haverá um. Eu necessito tempo para deixar descansar “Isabel”, para me purgar de Vicente e encontrar um novo tema e uma nova personagem ou personagens que sejam dignas do tempo de alguém.

Muito obrigado Inês por esta magnífica entrevista. Desejo-te muita felicidade e sucesso para a tua futura carreira.

Podem ler a versão original (em inglês) em History of My Life.