quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Entrevista sobre Isabel - Parte II

Kangas - Tu criaste também um pouco de controvérsia com a relação entre Vicente e Ana Maria. O que pensas sobre a relação entre um professor e uma aluna? Pensas que não existe um lugar para uma amizade entre estas duas pessoas na nossa sociedade?

Inês - Claro que não. Vivemos numa época em que as crianças são educadas para temerem os pedófilos e qualquer adulto desconhecido não é um potencial amigo mas um potencial pedófilo. Eu não penso que a sociedade aceitaria uma amizade entre um adulto e um criança/adolescente a não ser que estes fossem familiares (e mesmo assim seria escrutinada). Com um professor e uma aluna a situação torna-se ainda mais complicada, pois a sua relação não deveria transcender a sala de aulas. Eu sei que fui um pouco atrevida com aquela relação mas eu queria mostrar diversos pontos de vista, espero no entanto que nunca se tenha tornado perverso para o leitor.

K – Tu abordaste assuntos bastante sérios neste excelente livro. Um deles foi o divórcio e a custódia das crianças. Quem pensas que deveria ter sempre o direito à custódia das crianças?

I – Ninguém deveria ter sempre a custódia das crianças, nem mesmo os pais biológicos. É uma questão de avaliar o que é melhor para a criança e quem está apto a dar-lhe todo o amor e estabilidade que uma criança necessita, quer a nível emocional como financeiro.

K –No caso de Helena, ela mostrou não ser assim tão espectacular como mãe. Acreditas que Vicente estava mais preparado para essa responsabilidade? O que te levou a tomar a decisão de deixar Isabel a viver com o pai?

I – Helena foi uma excelente mãe até que a sua própria saúde se meteu no seu caminho, nesta altura acho que ela fez o seu melhor. Helena estava bastante deprimida depois de Vicente quase abandoná-la, e ainda assim, por um longo período de tempo, ela cumpriu todas as suas obrigações como mãe. Quando a dor começou a interferir com a forma como tratava da sua filha, ela foi-se embora. Tendo lido um pouco sobre depressão pós-parto achei a decisão dela muito madura. Eu sei que ela é uma menina rica e mimada e que iria procurar a ajuda de amas e empregadas mas não necessariamente por desinteresse. Na minha opinião, Vicente não estava de forma alguma mais bem preparado para tratar da filha, se Helena nunca se tivesse ido embora, ele nunca teria passado tanto tempo com a sua filha. Se Vicente nunca tivesse de ter escolhido entre Isabel e o amor da sua vida ele nunca o teria feito. No final, eles repartem a custódia, embora Isabel passe mais tempo com Vicente. Em última análise, é muito dificil encontrar uma partilha na custódia dos filhos 100% justa e isso põe imensa pressão na criança. Helena teve também um intenso processo de auto-desenvolvimento e recuperação a fazer antes de poder voltar a ser uma mãe a tempo inteiro.

K – Toda a história girou á volta de “Laudo Amorem”, um livro sobre uma apaixonada história de amor entre dois jovens; no final temos “Telas Brancas”. Tu acabaste por criar dois livro dentro de um. Como foi criar essas histórias dentro de “Isabel”?

I – Foi bastante difícil! Houve alturas em que pensei que teria de escrever “Laudo Amorem” primeiro. Eu criei “Laudo Amorem” como o amor de fantasia de Vicente. “Laudo Amorem” é bastante eficaz a justificá-lo, tudo o que ele queria era a relação das personagens do livro, mesmo que uma delas morresse no final, ele não se importava desde que sentisse aquele tipo de amor. “Telas Brancas” não necessitou de tanto empenho uma vez que apenas aparece no final. E assim como representa um novo começo na vida autora, representa também um novo começo na vida de Vicente.


Podem ler a versão original (em inglês) em History of My Life.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Entrevista sobre Isabel - Parte I

A minha estimada leitora Kangas é autora de um blog e de um jornal que envia para os amigos quinzenalmente. A Kangas entrevistou-me no mês passado para um exclusivo nas suas publicações que eu partilho agora com vocês em partes mais pequenas.

Kangas - Depois de quase um ano vivendo a vida de Vicente Vaz como te sentes agora que finalmente acabou?

Inês – Triste. Aliviada. Feliz. Esgotada. É muito gratificante quando se acaba algo que consome tanto do nosso tempo e mente como escrever um livro, mas ao mesmo tempo, deixa-nos um pouco perdidos e vazios. Há também muita insegurança, eu continuo a pensar se haveria algo mais que eu poderia ter feito e não fiz. Ao mesmo tempo é um alívio não ter de analisar todos os aspectos da vida aos olhos de Vicente.

K – Acredito que deva ter sido bastante dificil para ti encarnar uma personagem como o Vicente. Como foi para ti entrar e explorar a mente de um homem como Vicente Vaz?

I - Foi mesmo bastante difícil. O Vicente é muito diferente de mim. Partilhamos a mesma paixão pela literatura e pela arte, mas penso que a semelhança entre nós acaba aqui. O Vicente vive a vida julgando demasiado as pessoas, ele é muito senhor da verdade e infantil e emotivo e eu sou bastante mais racional. Para mim ter escrito Vicente foi entender o “outro lado da história". Isto acaba por ser um pouco irónico, pois apesar de Vicente ser tão crítico em relação às pessoas, o livro propriamente dito leva a uma ideia de tolerância e aceitação de que há sempre dois lados para cada história. O Vicente é uma combinação de várias pessoas que conheci e as suas características que me irritaram mais. Porque razão quis viver dentro da mente da pessoa que mais abominaria é algo que não sei, mas penso que esta seja talvez a minha forma de entender e perdoar os “Vicentes” da minha vida. Para me manter mais focada e em contacto comigo mesma dei a Vicente uma profissão que respeito muito e fiz-nos ter alguns interesses em comum. Admito que esse aspecto foi a minha consolação quando Vicente se tornava demasiado insuportável para mim.

K- Quer Helena como Vicente criaram nos teus leitores uma certa relação amor/ódio. Isso também se verificou contigo? Alguma vez te sentiste dessa forma em relação a eles?

I - Em relação a Vicente sem dúvida alguma, ele é bastante desprezível, especialmente no início; Ele é possessivo, lamuriento e tolo. Contudo de vez em quando mostra-nos um laivo de brilhantismo, uma história do passado que nos faz sentir pena dele e isso é o suficiente para voltar ao nosso coração. Em todos os momentos, eu nunca parei de amar e odiar Vicente ao mesmo tempo. Nunca vi Helena dessa forma, talvez porque, de todas as personagens no livro ela era a que eu conhecia melhor. Eu sabia o que lhe ia acontecer e como ela iria acabar. Nunca a odiei, mas também nunca a achei uma personagem adorável. Fiquei surpresa com a falta de empatia demonstrada por certos leitores em relação a ela, mas isso fez-me sentir mais confiante em relação a ela, pois também não queria que ela fosse vista como a "coitadinha”.

K – No início deste maravilhoso livro Helena parecia ser uma mulher submissa e vítima de abuso que depois desenvolveu numa personagem bastante diferente. Alguma vez acreditaste que ela fosse realmente uma vítima?

I- Ela era tão vítima quanto Vicente. Ambos se apaixonaram pela pessoa errada e sofreram as consequências disso. Sem dúvida que Vicente quase podia ser considerado psicologicamente abusivo para com ela, mas eu sempre soube que Helena tinha força suficiente para lutar contra isso.

K – Alguma vez esteve na tua mente criar uma Helena frágil e fraca?

I- Não, mas ela passou por tempos bastante difíceis. Ela nunca tinha ouvido falar de Isabel até ter dado á luz a filha de Vicente. Descobrir que o pai da tua filha ama outra pessoa e que está disposto a largar tudo por essa pessoa é muito difícil. Helena sofreu de depressão pós-parto e daí ter-se tornado mais frágil e fraca, mas como disse anteriormente, eu sabia que ela se iria recompor.

K - A verdade é que ela se torna numa mulher bastante diferente e à medida que lemos a história, esta desenvolve e nós descobrimos que existem diversos factores que afectam aquele casal e a forma como interagem um com o outro. Acreditas que algum deles foi um verdadeiro vilão?

I - Não. Mais uma vez, a moral da história digamos assim, é que existem sempre dois lados para a mesma história. Vicente cometeu erros, Helena cometeu erros. Contudo Helena amou verdadeiramente Vicente e se ele tivesse sido um pouco menos complicado, para por a questão de uma forma mais suave, eles podiam ter ficado juntos.

K – Não posso deixar passar esta questão. Quem é o vilão em “Isabel”?

I - Ninguém. Por mais aborrecido que possa parecer não existe vilão em “Isabel”. Não existe sequer um herói. Não posso ver as pessoas chamarem Vicente de herói, ele é muito conflituoso e faz demasiados erros para ser um herói.


Podem ler a versão original (em inglês) em History of My Life.