quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Entrevista sobre Isabel - Parte I

A minha estimada leitora Kangas é autora de um blog e de um jornal que envia para os amigos quinzenalmente. A Kangas entrevistou-me no mês passado para um exclusivo nas suas publicações que eu partilho agora com vocês em partes mais pequenas.

Kangas - Depois de quase um ano vivendo a vida de Vicente Vaz como te sentes agora que finalmente acabou?

Inês – Triste. Aliviada. Feliz. Esgotada. É muito gratificante quando se acaba algo que consome tanto do nosso tempo e mente como escrever um livro, mas ao mesmo tempo, deixa-nos um pouco perdidos e vazios. Há também muita insegurança, eu continuo a pensar se haveria algo mais que eu poderia ter feito e não fiz. Ao mesmo tempo é um alívio não ter de analisar todos os aspectos da vida aos olhos de Vicente.

K – Acredito que deva ter sido bastante dificil para ti encarnar uma personagem como o Vicente. Como foi para ti entrar e explorar a mente de um homem como Vicente Vaz?

I - Foi mesmo bastante difícil. O Vicente é muito diferente de mim. Partilhamos a mesma paixão pela literatura e pela arte, mas penso que a semelhança entre nós acaba aqui. O Vicente vive a vida julgando demasiado as pessoas, ele é muito senhor da verdade e infantil e emotivo e eu sou bastante mais racional. Para mim ter escrito Vicente foi entender o “outro lado da história". Isto acaba por ser um pouco irónico, pois apesar de Vicente ser tão crítico em relação às pessoas, o livro propriamente dito leva a uma ideia de tolerância e aceitação de que há sempre dois lados para cada história. O Vicente é uma combinação de várias pessoas que conheci e as suas características que me irritaram mais. Porque razão quis viver dentro da mente da pessoa que mais abominaria é algo que não sei, mas penso que esta seja talvez a minha forma de entender e perdoar os “Vicentes” da minha vida. Para me manter mais focada e em contacto comigo mesma dei a Vicente uma profissão que respeito muito e fiz-nos ter alguns interesses em comum. Admito que esse aspecto foi a minha consolação quando Vicente se tornava demasiado insuportável para mim.

K- Quer Helena como Vicente criaram nos teus leitores uma certa relação amor/ódio. Isso também se verificou contigo? Alguma vez te sentiste dessa forma em relação a eles?

I - Em relação a Vicente sem dúvida alguma, ele é bastante desprezível, especialmente no início; Ele é possessivo, lamuriento e tolo. Contudo de vez em quando mostra-nos um laivo de brilhantismo, uma história do passado que nos faz sentir pena dele e isso é o suficiente para voltar ao nosso coração. Em todos os momentos, eu nunca parei de amar e odiar Vicente ao mesmo tempo. Nunca vi Helena dessa forma, talvez porque, de todas as personagens no livro ela era a que eu conhecia melhor. Eu sabia o que lhe ia acontecer e como ela iria acabar. Nunca a odiei, mas também nunca a achei uma personagem adorável. Fiquei surpresa com a falta de empatia demonstrada por certos leitores em relação a ela, mas isso fez-me sentir mais confiante em relação a ela, pois também não queria que ela fosse vista como a "coitadinha”.

K – No início deste maravilhoso livro Helena parecia ser uma mulher submissa e vítima de abuso que depois desenvolveu numa personagem bastante diferente. Alguma vez acreditaste que ela fosse realmente uma vítima?

I- Ela era tão vítima quanto Vicente. Ambos se apaixonaram pela pessoa errada e sofreram as consequências disso. Sem dúvida que Vicente quase podia ser considerado psicologicamente abusivo para com ela, mas eu sempre soube que Helena tinha força suficiente para lutar contra isso.

K – Alguma vez esteve na tua mente criar uma Helena frágil e fraca?

I- Não, mas ela passou por tempos bastante difíceis. Ela nunca tinha ouvido falar de Isabel até ter dado á luz a filha de Vicente. Descobrir que o pai da tua filha ama outra pessoa e que está disposto a largar tudo por essa pessoa é muito difícil. Helena sofreu de depressão pós-parto e daí ter-se tornado mais frágil e fraca, mas como disse anteriormente, eu sabia que ela se iria recompor.

K - A verdade é que ela se torna numa mulher bastante diferente e à medida que lemos a história, esta desenvolve e nós descobrimos que existem diversos factores que afectam aquele casal e a forma como interagem um com o outro. Acreditas que algum deles foi um verdadeiro vilão?

I - Não. Mais uma vez, a moral da história digamos assim, é que existem sempre dois lados para a mesma história. Vicente cometeu erros, Helena cometeu erros. Contudo Helena amou verdadeiramente Vicente e se ele tivesse sido um pouco menos complicado, para por a questão de uma forma mais suave, eles podiam ter ficado juntos.

K – Não posso deixar passar esta questão. Quem é o vilão em “Isabel”?

I - Ninguém. Por mais aborrecido que possa parecer não existe vilão em “Isabel”. Não existe sequer um herói. Não posso ver as pessoas chamarem Vicente de herói, ele é muito conflituoso e faz demasiados erros para ser um herói.


Podem ler a versão original (em inglês) em History of My Life.

1 comentário:

Kangas disse...

Foi um prazer enorme fazer esta entrevista e dar a conhecer esta magnífica obra.

Espero que ela seja publicada em breve e que tenha o sucesso e reconhecimento que tanto merece.

Abraço

Kangas