quarta-feira, 8 de julho de 2009

"O mito é o nada que é tudo"

Hoje, a próposito do memorial do Michael Jackson lembrei-me de um dos melhores oxímoros da literatura portuguesa:

"O mito é o nada que é tudo"

Este é o primeiro verso de "Ulisses" de Fernando Pessoa em A Mensagem e por mais contraditório que seja, é bem verdade. A minha poesia não é forte em oxímoros, às vezes o seu impacto perde-se na sua complexidade, mas este é tão objectivo e tão descriptivo que não poderia haver melhor forma de descrever um mito.

Por mais vezes que leia A Mensagem, os mesmos versos que me apaixonaram há anos atrás ainda têm em mim o mesmo impacto. Esqueçam a mensagem pseudo-patriótica, A Mensagem é muito mais do que isso. Entristece-me o quão esquecido e o quão pouco apreciado é Fernando Pessoa em Portugal.

Pensando melhor, haverá algum poeta realmente apreciado em Portugal?

1 comentário:

Kangas disse...

Excelente tema!


Infelizmente não é dado aos poetas em Portugal o devido valor. As pessoas conhecem os poetas ou porque falaram neles na escola ou porque falam deles na TV (o que raramente acontece infelizmente).

Fernando Pessoa para mim foi um génio, a forma como ele criou a sua obra dividida quer pelo seu ortónimo e heterónimos foi brilhante. A particularidade e perícia em criar uma carta astral para cada heterónimo e tratar cada um deles como uma pessoa diferente é brilhante. Fez um deles o Mestre Caeiro, um mestre até para ele próprio ... um génio!

E o frenético Álvaro de Campos com os seus "rrrrr" e mecanismos e sons e tudo o que o caracterizava; todo aquele movimento que caracterizava o seu trabalho ...

Se começasse aqui a falar em Pessoa não acabava mais. ë um poeta que admiro muito, tive a oportunidade de o estudar na escola e devo dizer que foi dos poetas portugueses que mais gostei.

Em relação ao oxímoro que nos trazes hoje e à morte do Michael Jackson, penso que estão muito bem relacionados. Ele foi um mito em tudo o que fez, e o seu mais pequeno gesto ("nada") era "tudo" os seus fans e seguidores.

Descancem em paz estes dois génios, um da música e o outro da escrita.

Abraço

Kangas