sábado, 25 de outubro de 2008

Capítulo III - Parte 2: Salvação

-Ele? Ele quem?

-O tal do Almeida de Andrade! Por ele fazias tudo. Até abandonar a tua filha recém-nascida! Que tristeza, Vicente! Um homem! Ainda por cima nem o conheces, como podes amá-lo tanto?! Por que não me avisaste logo que a tua especialidade não era o sexo feminino?

-Cala-te, Helena! – tive de levantar a voz – Já chega, está bem? Já me ofendeste o suficiente por hoje. E agora és mãe, não tens mais idade para dizer disparates!

Meu Deus! Estava chocado, perplexo...As coisas que passavam pela cabeça daquela mulher! Eu amava o Almeida de Andrade!!! Um homem ainda por cima...Sei que não faço o género macho latino mas homossexual também não sou. Aprecio muito o sexo feminino, a graça do corpo feminino, o pensamento e sentimento feminino. Hoje em dia até parece estar na moda ser gay, na minha Faculdade havia muitos, ou pelo menos era o que se dizia, eu cheguei a ser amigo de um. Chamava-se Rodrigo e andava um ano à minha frente, tínhamos Literatura Francesa juntos. Era boa pessoa, grande apreciador de Zola. Não fazia nada o “típico” gay, era uma pessoa normalíssima e tratava-me tal como eu tratava qualquer rapariga. Mas eu, homossexual?! A Helena só podia estar doida! E mesmo que fosse, logo com o Almeida de Andrade que como ela bem disse, eu nem conheço? Será assim tão difícil de ver que os meus sentimentos pelo Almeida de Andrade são de admiração e gratidão? Por que é que fazem telenovelas sobre isso? Eu adoro a obra dele, adoro a maneira como ele escreve, o livro dele mudou a minha vida e trouxe-me um novo alento, sinto-me permanentemente em dívida com ele...Sim, é verdade! Isso é algum crime por acaso? Faria quase tudo por ele (não abandonaria a minha filha, claro) mas mesmo que fizesse tudo, esse “tudo” saber-me-ia sempre a pouco quando comparado ao que ele fez por mim. Eu adoro-o, eu venero-o...Não o amo...ou pelo menos não nesse sentido.

-Vicente, decide-te! Isto não pode continuar assim! Ou nós, eu, tu e a nossa filha, ou ele? Não há lugar na nossa família para esse homem... – disse já mais calma – Tu não vês que desde que ele apareceu tudo piorou. Tu mudaste desde que leste esse livro. E não me refiro só a passares a maior parte do tempo a lê-lo, refiro-me à tua maneira de ser. Antes eras mais brando, mais conformado, comportavas-te como qualquer outro marido. Éramos felizes. Agora não: rejeitas-me, tratas-me mal, afastas-me da tua vida. Parece que percebeste que sou um empecilho para ti, que já não me queres mais. E não queres, porque agora só queres o Almeida de Andrade...

-Helena, já leste o Laudo Amorem por acaso? Não leste. Não conheces a dimensão da obra. Ela mudou-me, de facto, predispôs-me a tentar fazer de tudo para ser feliz, tirou-me do marasmo em que vivia, onde tudo era sempre igual...Eu não quero ser mais um marido igual a tantos outros. Não há mal em ser diferente, qual é o mal de ser diferente? Mudei para melhor, talvez não seja mais aquela pessoa fechada e conformada que conheceste, que te pediu em casamento...isso quer dizer que sou uma pessoa pior?

-Não...Isso quer dizer que já não me amas e já não me queres mais...

Pensei para mim “Mas eu alguma vez quis?”. Se tentasse lembrar-me das coisas que me fascinaram em Helena para ter querido casar com ela, não conseguiria. Pertence tudo a um passado de um outro eu que sucedeu a um outro eu que sucedeu a um outro eu. A vida pode ser feita de metamorfoses. Quem disse que não passamos de lagartas que se transformam em borboletas até secarem para morte? Por que é que se faz sempre um drama tão grande sempre que alguém muda e se aprecia tão pouco a solidez e coerência das pessoas? Talvez porque o mundo está em constante mutação e as pessoas tenham medo do que é novo e diferente porque têm medo da mudança, daquilo que não conhecem e não sabem dominar. Até disso o Laudo Amorem fala. Miguel era um rapaz muito diferente antes de conhecer Lídia. Era um típico adolescente, interessava-se por carros, muitas miúdas, sexo, álcool. Vivia até de madrugada acelerando no seu carro rosa-choque alterado por essas modas do tuning, não ia à escola, vivia à custa dos pais...Até que um dia, ou melhor, uma noite, encontrou uma rapariga na discoteca. Era Lídia. “...Miguel olhou-a, singela na sua beleza recôndita e cativante. Quis aproximar-se dela mas não sabia como. Aquela frase típica de olá-querida-deixa-me-mostrar-te-a-diversão-da-vida que ele dizia a todas simplesmente não podia resultar com aquela menina. Era magrinha e baixa, os cabelos castanhos compridos caíam-lhe sobre os ombros e encobriam o seu rosto albino. Os grandes olhos castanhos estavam perdidos no nevoeiro de fumo como que esperando uma salvação. Naquele momento, Miguel sentiu que era a salvação que ela precisava ignorando que quem o ia salvar era ela...”. A partir daquele momento, Miguel mudou completamente, tornou-se um rapaz crescido, dedicou-se aos estudos...até vendeu o carro para poder oferecer um anel a Lídia. Ela nunca lhe pediu para mudar. Enquanto foram amigos, período que durou dois meses e meio, Miguel continuava a levar o mesmo estilo de vida e mesmo quando começaram a namorar ele apenas abrandou. Lídia não se importava, gostava dele mesmo sendo esgrouviado. Ele acabou por mudar naturalmente, sentiu que precisava de crescer. Ela também não se importou. Miguel ia precisar de mudar de modo radical e brutal para ela deixar de amá-lo. Com todos os defeitos, com todas as qualidades, Miguel e Lídia aceitavam-se e eram felizes porque se respeitavam enquanto indivíduos. Foi isso que me faltou, respeito pela pessoa amada. Nunca lhe dei espaço, nunca a aceitei como ela era, sempre tentei moldá-la aos meus desejos. Não percebi que apesar do amor que sentia por ela me fazer sentir como se fossemos só um, nós éramos de facto duas pessoas distintas...tanto que ela partiu e eu não pude fazer nada senão resignar-me...

É isso, o Laudo Amorem tirou-me do estado de resignação em que me encontrava, aquele em que se aceita tudo e não se luta ou se ousa contradizer os factos. Tinha apagado as memórias do passado, o Laudo Amorem fizera-me ruminar sobre os erros que cometi, sobre o modo como as coisas aconteceram. Deu-me vontade de achar um porquê para tudo, de tentar encontrar lógica na vida, na existência humana e sobretudo na minha própria existência tão seca e morta, de pensar em como deixei escapar as coisas boas da vida que se cruzaram comigo...Como podia não sentir gratidão por quem me salvou, quem me tirou do abismo? Mas será que valia a pena tentar explicar a Helena sequer? Ela nunca iria entender. Decidi sair do quarto do hospital. Longe já vai o tempo em que tinha paciência para discutir com Helena, sentir a podridão daquela relação a correr-me nas veias, procurar a pedra maior e mais aguçada para atirar ao seu coração...Agora deixei-me desses jogos, preferia abandonar o campo de batalha e deixá-la a gritar ou a chorar por mim, até perder as forças e cair sobre o chão despejando as suas armas em sinal de derrota. Com ela sempre resultava, bastava eu não responder para tirar Helena do sério e ganhar logo ali, naquele instante, um pedido de desculpas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Capítulo III - Parte 1: É ele, não é?

Pobre Isabel. Exausta de esperar dormia no seu berço, perante o meu olhar arrependido e o silêncio cortante e magoado de Helena. Não a olhei nos olhos. Tudo o que ela dissesse seria escusado. Eu ia defender-me com unhas e dentes, ia atacá-la, sabendo sempre, a todos os segundos que ela era a detentora da verdade. Nem a minha sogra, nem a minha mãe estavam lá. Tinham todos saído ao final da tarde. Desde aí, Helena tinha ficado sozinha e a chorar. “Depressão pós-parto”, disse-me a enfermeira. Consta que as mulheres, após darem à luz ficam muito sensíveis e emotivas, precisam de muita atenção e carinho.

-O senhor tem que ver que, enquanto está grávida, a mulher é o centro das atenções, os quilos, as estrias, a distância entre ela e o marido são naturais. Porém, quando a criança nasce, as atenções viram-se todas para ela e a mulher depara-se com as alterações do seu corpo, sente-se pouco amada pelo marido. O meu conselho é que dê tempo ao tempo mas sobretudo, dê muita atenção à sua esposa. Mostre que nada mudou e que a ama mesmo que ela não volte a recuperar a linha...

Não percebi porque motivo deixaram a Helena sozinha. Custava muito terem ficado ali a fazer-lhe companhia? Coitada. Não imaginava Helena no meio de uma depressão, fosse de que natureza fosse. Ela era pouco dada a emoções, sentimentalismos, coisas espirituais. Era uma pessoa bem-disposta e forte. Pelo menos conhecia-a assim. Talvez tivesse mudado com a gravidez, talvez até antes...Não sei, ultimamente não tenho pensado muito na Helena. Ela não podia deixar abater-se, a Isabel precisa dela forte e saudável. Voltei a entrar no quarto onde, Helena, com o olhar quieto e absorto fitava a parede branca com um falso olhar interessado.

-Helena? – ela fingiu não ouvir – Helena? Estás bem?

-Que achas, Vicente? Preciso mesmo de responder? Desde que a nossa filha nasceu passaste talvez quinze minutos neste hospital e mesmo desses quinze minutos se passaste um ou dois a falar comigo já foi muito. Que se passa? Por que andas a fugir? Pensei que quisesses ser pai, Vicente.

Olhei para o chão. Parte de mim queria dar-lhe razão, pedir desculpa e dizer que tudo isso ia mudar. Ela faria o seu olhar triunfante e satisfeito e por alguns dias tudo ia andar bem até eu regressar às mesmas atitudes...Então porquê ser insincero? Nada ia mudar? Por que havia de fazer promessas que sabia de antemão serem impossíveis de cumprir. Os dias passariam e nada se alteraria. Por outro lado, também não podia contrariá-la, não devia. Ela estava frágil e magoada e no fundo, eu sabia, eu sabia bem que ela detinha toda a razão.

-Não faço por querer – não fazia mesmo. – Surgiram uns trabalhos novos e eu quis adiantá-los hoje para amanhã poder estar com a Isabel...e contigo também, claro...

-Trabalhos? Que trabalhos poderás ter tu? Tudo o que fazes é dar aulas...

-Um colega convidou-me para dar uma palestra aos alunos dele sobre uma obra e para depois ir assistir à Conferência que o autor dessa obra vai dar lá na escola. É uma grande responsabilidade, entendes? Ele é professor de História e é o Director de Turma e...

-Chega, Vicente, chega! Estou farta das tuas desculpas. Há sempre qualquer coisa mais importante do que eu na tua vida. É incrível! Será que não consegues reorganizar o teu tempo? Será que és assim tão ocupado? Ou seja o que for passa à minha frente e serve de pretexto para não estares comigo?! Nem agora, Vicente! Nem agora que nasceu a nossa filha e quer queiras quer não vais ter um elo de ligação comigo para sempre...Nem agora te preocupas comigo! Sou assim tão insignificante para ti que qualquer estudo de uma obrazinha ou de um autorzeco qualquer passa à minha frente? Não podias nem por uma hora deixar isso de lado e vir ver-nos hoje?

-Helena, tem calma – aconselhei-a num tom calmo e frio – Não te exaltes. Eu vinha visitar-vos, apenas perdi as horas...Sabes como sou distraído ou já não te recordas? E depois, aquele trabalho é mesmo importante. É uma boa chance de me mostrar como professor e de me afirmar...Estas experiências dão prestígio e...

-Desculpas, só desculpas que já me enojam...É ele, não é?

Fitei-a espantado e intrigado. Não entendia onde ela queria chegar. Nunca a tinha visto assim tão revoltada e juro, já lhe fiz coisas piores. Por exemplo, no último aniversário de casamento, ela convidou-me para ir jantar fora. Nós fomos. Enquanto esperávamos pela comida, fui à casa de banho do centro comercial. Acabei por entrar numa livraria e fiquei por lá duas horas, quando regressei ao restaurante ela tinha ido embora. E se não for ela, essas datas (aniversário de casamento, dia em que nos conhecemos, dia em que começámos a namorar, etc...) passavam-me em branco. Helena estava muito revoltada, nem sabia o que dizia, perdera a postura e a razão. Ela sabia que eu, na generalidade, era quase sempre sincero. Dizia-lhe a verdade por mais que ela doesse. Talvez muitas vezes esse tenha sido o meu erro. Não devia ser tão honesto. Há pessoas assim, que gostam de viver na ilusão, no limiar abstracto da felicidade aparente. No dia em que a pedi em casamento, eu fui bem claro, avisei-a que não a amava, que não ia ser o melhor dos maridos, que não pretendia abdicar de muitas coisas. Mesmo assim, ela aceitou. Não a enganei nunca. Ela sempre soube ao que veio. Eu mantive sempre a mesma postura, a mesma atitude. Ela disse-me para ficar descansado, que eu havia de aprender a amá-la, que não se importava porque também lhe convinha casar e que não queria que eu mudasse os meus hábitos desde que nunca a traísse. Se há coisa que a Helena nunca iria tolerar era uma traição. Isso não me fazia diferença, o meu desinteresse por mulheres não é só para lançar charme, é mesmo real. Helena satisfazia-me todas as necessidades e muito bem até. Se bem que, na verdade, eu nem tenho muitas necessidades para satisfazer, cada dia tenho menos...Deve ser da idade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Capítulo II - Parte 5: O Universo do Vicente Vaz

Abri a mala de novo e tirei uma caneta e arranquei um pedaço de uma das folhas de cartão que compunham o álbum de fotografias que me tinham oferecido e escrevi “Acha que o seu livro pode ser um farol para as mentes mais desorientadas e à deriva?”. Pelo menos uma questão, já tinha. Guardei tudo na mala e corri para o carro. O tempo urgia, tinha de despachar-me para poder passar pelo hospital ao fim da tarde pelo menos. Ainda queria voltar a ver Isabel, nem que fosse só a dormir. Ela tem de saber que eu sou o pai dela. E ainda tenho de criar coragem para pegar-lhe ao colo.

Cheguei a casa num nervoso miudinho larguei a mala e o casaco no chão e corri para o escritório. Abri as gavetas e procurei todas as folhas soltas com pensamentos e estudos acerca do Laudo Amorem. Tinha de passar tudo a limpo. Envolvi-me no trabalho que tinha de realizar sem falta e pousei o relógio em cima da secretária...As horas, esqueci-as algures num canto da minha mente. Da janela não avistei nem entardecer, nem a chegada mansa e outonal da noite sobre a cidade. O meu mundo estava concentrado, fechado e encerrado. Nele só havia eu. Eu e aquela imensidão de papéis perdidos, de anotações em guardanapos, folhas soltas, até papel higiénico. Nem a foto do casamento com a Helena, assente sobre a secretária, envolta na sua moldura dourada e brilhante me acordou para um universo diferente daquele. O universo do Vicente Vaz, professor, homem casado, com uma filha recém-nascida, sério e com responsabilidades, horários e obrigações...esse universo dissipara-se. Ficara apenas aquela parte de mim que idolatrava o Almeida de Andrade e estava a esforçar-se para impressioná-lo com as suas teses. Tanto sacrifício e ele se calhar nem ia ler todo aquele trabalho, todos aqueles segundos e minutos e horas e dias a pensar no Laudo Amorem. Seria justo? Seria justo que eu pensasse tanto nele e ele pudesse passar por mim sem me ver sequer? Não podia ser! Eu não podia ser insignificante para ele. A nossa ligação...A nossa ligação deve estar escrita nas estrelas, os nossos destinos já se devem ter cruzado em vidas anteriores. Só isto pode justificar a mudança que ele causou na minha vida, o modo explosivo como ele perturbou a quietude inconformada da minha vida. Ele conhecia-me tão bem. Ah, como ele me conhecia bem. Cada traço meu, cada pensamento, cada característica, cada sentimento...Ele escrevera para mim aquele livro. Ele conhecia-me, sim, ele conhecia-me! E todos os meus estudos, ele ia lê-los com atenção, apreciá-los e dar ao editor para o caso de haver algum interesse em publicar um estudo sobre o Laudo Amorem...

A fome despertou-me. Não andava a comer nada bem. Faltava-me a organização de Helena, a cozinhar para mim, a chamar-me para as refeições. Sem ela, a casa perdia o espírito, tornava-se apenas uma caverna, um refúgio do frio e do vento, um sítio para parar e descansar. Eram quase nove horas. Quase nove horas e assim tinha passado um dia inteiro. Não tinha ido ver a Isabelinha. Ela ainda era tão recente na minha vida e já estava a deixá-la ficar mal. Pobre criança! De nada me valem as minhas promessas. No fundo, sei sempre de antemão as que vou cumprir e as que não então para quê prometer coisas que sei que não vou realizar? Tento enganar-me, jogar jogos ridículos na minha mente. O centro da minha vida sou eu. Eu e sou eu. Só penso em mim, no meu bem-estar, na minha sobrevivência efémera de quem espera por algo que não vem. Helena, Isabel, a família e mesmo o trabalho eram meros satélites da minha vida – sempre seriam. Satélites distantes que não me fazem girar mais depressa ou mais devagar, são apenas satélites. O centro serei sempre eu. Eu e a minha existência. Eu e os meus sentimentos. Eu e os meus pensamentos. Os outros que se revoltem contra mim, achem que estou errado...Isso só vai servir para fazer arder mais este fogo que carrego comigo, o fogo da minha alma egoísta. Interesso-me por mim, preocupo-me comigo, amo-me a mim. Sempre estive sozinho no meu mundo afinal. Nunca ninguém conseguiu entrar nele, sem ser...sem ser ela...Ela e o Almeida de Andrade. Mas como ela estava perdida, restava-me o Almeida de Andrade, com quem podia compartilhar a minha vida. Ele entender-me-ia. Ele era um ser só como eu. Habituado a ser posto de lado, daí a sua solidão, daí o seu egocentrismo...Não de propósito, não é por arrogância, é a nossa protecção: se estivermos com nós próprios, nunca estaremos realmente sozinhos. O importante é não nos perdermos de nós, a nós mesmos temos que ser fiéis...Mas a minha filha, a minha Isabel...ela já devia ter entrado no meu mundo...

Ninguém me tinha ligado a chamar por mim. Helena já nem estranha a minha ausência, a minha sogra não deve ter agido para ver até onde eu ia, a minha mãe, com certeza, abandonou o hospital a meio da tarde morrendo de vergonha e desapontamento. Nenhuma delas me interessava, preocupava-me Isabel. Será que ela telefonar-me-ia a chamar por mim se já fosse mais velha? Agarrei no casaco e vesti-o. A minha filha devia estar a desesperar chamando por mim e aposto que todos ignorariam que o seu choro era por minha causa.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Capítulo II - Parte 4: Ana Maria

Quando ia no corredor, cruzei-me com a Ana Maria, minha aluna. Ana Maria era uma excelente aluna, com uma expressão escrita e uma fluência fabulosa. No entanto, era muito tímida e muito insegura. As aulas, passava-as na maioria em silêncio. Não levantava o braço, não reclamava, apenas sorria e fazia tudo o que lhe era pedido. Se não fosse tão boa aluna, ainda hoje eu não saberia quem era a Ana Maria Bastos. Ela olhou para mim, sorriu e esboçou um “olá”, baixando de seguida os olhos. Tive vontade de pará-la, de conversar com ela, de perguntar-lhe por que é que temia mostrar-se, de que é que ela tinha medo se tinha tanta garra por dentro, a arder...Ana Maria dava-se bem com duas ou três meninas da turma e com a maioria dos rapazes. Era calada e pouco espontânea e isso não a ajudava a aprofundar relações. Será que ela tinha medo dos compromissos, das relações porque podia sair magoada delas? De qualquer maneira, os treze e catorze anos são idades tão difíceis, sobretudo para as raparigas. Para mim foram tempos muito complicados de constante luta para definir a minha personalidade, as minhas vontades. Foi nessa altura que comecei a traçar sonhos e decidi lutar por eles. Quando tinha catorze anos tinha uma coragem que perdi não sei onde nem porquê. Quando tinha catorze anos, queria descobrir o significado, o propósito da vida...Hoje já não me questiono sobre nada, aceito tudo o que vem...Não sei onde começou este confortável conformismo. Ana Maria, silenciosa e singela, iludia as pessoas. Por fora, ela parecia partilhar do meu conformismo actual mas no fundo, bem no fundo dela, estava bem presente a fúria e a ânsia dos meus catorze.

Voltei-me e por instantes, segui-a. Chamei pelo seu nome. Ela ouviu perfeitamente e ignorou. Retornei a chamar e ela virou-se para mim.

-Professor?

-Ana Maria...Avisa os teus colegas que não vou dar aulas nem hoje nem amanhã, está bem?

-Sim...

-Ana Maria, gostas de ler?

-Gosto. Prefiro escrever mas também gosto muito de ler.

-Claro, uma coisa arrasta a outra... – abri a minha mala e retirei o Laudo Amorem – Já alguma vez leste este livro?

Ela fitou-me atribulada. Não entendia o propósito daquele discurso.

-Não. Já ouvi falar só que nunca li.

As suas frases eram fatalmente curtas e objectivas como um discurso profissional. Falava baixo e nunca me olhava nos olhos. Eu não estava a avaliá-la, era uma conversa meramente ocasional, ela não tinha motivo para agir assim, com tanto medo e nervosismo.

-Toma, lê – ela voltou a olhar-me baralhada. – Vais gostar. Que seja um farol para o teu espírito e que vejas nele a solução para ti – estendi-lhe o livro.

-Professor... – lia-se nos olhos dela a questão que ela omitiu “Porquê?” – Muito obrigada. Eu leio e depois devolvo-lhe. Muito obrigada.

-Não te preocupes com isso, Ana Maria. Agora vai para a aula e até à próxima aula.

Ela partiu sem se despedir e agarrando o livro entre as suas pequenas mãos. Tinha uma estatura delicada, um rosto dócil e os cabelos castanhos finos e compridos que lhe caíam sobre as costas e dançavam enquanto ela se afastava de mim. Dera-lhe para as mãos o Laudo Amorem, o meu Laudo Amorem...Tinha sido uma atitude instintiva. Algo me disse que aquela obra podia ser a resposta que ela tanto procurava e que a oprimia. Havia nela um olhar distante e vago que me recordou Lídia. Lídia esperando pelo seu Miguel sem esperança, sem vontade, quase esperando por esperar. Até que Miguel chegou e Lídia nem soube como acolhê-lo no seu coração. Laudo Amorem tinha tantas respostas para a vida, parecia um manual escolar onde se ensinava a ser feliz, a encontrar-se...Ana Maria parecia estar aflita, parecia não estar a suportar mais as questões que bombardeavam a sua vivência, a inquietude da sua alma já estava a tornar-se demasiado insuportável. Naquele momento, aquele livro podia ajudá-la tanto. Ana Maria é nova, certamente vão escapar-lhe muitos conceitos, muitos pormenores, muitas propriedades literárias mas se tenho uma aluna que creio ser capaz de absorver o Laudo Amorem, essa aluna é a Ana Maria. É a única com densidade psicológica e profundidade sentimental suficientes para entender Lídia e Miguel. Laudo Amorem podia e ia ajudá-la.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Capítulo II - Parte 3: Velhos Horizontes

-Desculpa, Maria do Carmo mas vou contar ao Vicente. Ele é professor desta casa, da área das línguas, é um homem culto e além disso, é um dos maiores admiradores do trabalho do Almeida de Andrade. Eu estava, inclusive, a pensar convidá-lo para ir dar uma espécie de aula sobre o Laudo Amorem à turma, para eles se inteirarem bem da pessoa e da obra que vão conhecer. O Vicente vai ser de extrema utilidade, não há razão para não contar-lhe.

Fiquei boquiaberto. Conhecê-lo?! O Almeida de Andrade vai aparecer, vai revelar-se? Meu Deus! Parece inacreditável, pensei que ia morrer sem poder conhecer esse grande homem, a minha alma-gémea. A única pessoa que até hoje parece ter conhecido os meandros da minha dor, dos meus sentimentos.

-Está bem, Carlos. Faz como entenderes. Mas, Vicente, já sabes que não podes contar a ninguém. Ainda nem sequer está nada confirmado.

-Sim, sim – a Maria do Carmo abandonou o sofá e deixou-me a sós com o Carlos. Agora poderia libertar toda a minha curiosidade e ânsia – O que é que se passa? Conta-me! Já sabes quem é o Almeida de Andrade? Que história é essa da tua turma ir conhecê-lo?

-Tem calma, tem calma... – aconselhou-me ele.

O Carlos era o Director de Turma do décimo primeiro H. Como sempre, somos obrigados a realizar um Projecto com as nossas turmas. O tema do projecto era “Novos Horizontes na Literatura Portuguesa” e a ideia era estimular não só a leitura como o próprio espírito de criação. Decidiram, então, que um bom método de despertar para a leitura, seria divulgarem alguns escritores contemporâneos. Carlos, aproveitando-se da oportunidade, idealizou trazer Almeida de Andrade à nossa escola para uma conferência de imprensa. Não contou nada a ninguém e fez tudo à revelia, tão pouco confiante estava no sucesso da sua iniciativa. Escreveu uma carta a convidar o Almeida de Andrade endereçada à editora e duas semanas depois, recebeu uma resposta pessoal dele mesmo. Ele mostrou-me a carta, escrita a computador e assinada à mão com uma caneta preta.


“Caro Professor Carlos Figueiredo:

Foi grande carinho que acolhi o seu convite. A escola onde ensina, foi a escola que frequentei nos meus não tão longínquos tempos de estudante. Por outro lado, a ideia de tentar cativar os jovens não só para a leitura mas também para a escrita agradou-me bastante.

É com grande orgulho que aceito participar no seu projecto. Pode contar comigo quando precisar mas peço-lhe que contacte o meu editor e que com ele escolha a data mas adequada a ambos.

Os meus sinceros cumprimentos,

Almeida de Andrade.”


Minha alma estava parva! O Almeida de Andrade tinha estudado ali, como eu! Eu devia conhecê-lo nem que fosse de vista. Tinha mais ou menos a minha idade, estudou ali e na Faculdade de Letras, devia ser da minha cidade. Eu já devo ter cruzado o meu caminho com o dele aí algures. No entanto, isso agora não interessava mais porque eu ia, de facto, conhecer o Almeida de Andrade. Ia poder apertar-lhe a mão, cumprimentá-lo, louvá-lo pela sua obra magnífica, pela sua sensibilidade, o seu lirismo magnânimo e avassalador. E por que não, abraçá-lo num gesto puramente fraterno e grato pelos sentimentos que reanimara em mim, pelos momentos bons que passei a lê-lo? Devia tanto a este homem, tanto. Tinha tanto que agradecer-lhe. Se agora tenho forças para criar a Isabel, é graças ao Laudo Amorem, se não fosse por ele...Bem... não sei onde estaria, talvez já não neste mundo. E depois, tinha tanto para dizer-lhe, tantas questões para fazer-lhe...algumas talvez demasiado pessoais. Costumam dizer que os artistas detestam explicar as suas obras, dizem que quando as fazem, entregam-nas ao mundo, deixam de pertencer-lhes e eles passam a poder vê-las apenas como meros espectadores ou leitores. Não me parecia que Almeida de Andrade fugisse à excepção. Alguém que nem queria revelar a cara muito menos quereria revelar o seu íntimo. Ah! Mal podia esperar por conhecê-lo, estou certo que todo o meu conhecimento aprofundado sobre a sua obra irá espantá-lo! Quem sabe não me torno seu amigo, assim poderia ter acesso a material que ele nunca lançou...Ver o original do Laudo Amorem, meu Deus, isso seria maravilhoso! Se calhar, já estou a ir longe demais...Se bem me conheço, quando tiver aquela oportunidade única de falar com ele em toda a minha vida, só vou dizer coisas banais, incapazes de cativarem uma alma em constante ebulição como a do Almeida de Andrade. Fui sempre assim, sempre fraquejei nos momentos mais importantes, sempre deixei escapar as oportunidades mais preciosas...

-E já está confirmado? – Perguntei-lhe.

-Ainda não. Estamos a estudar datas mas possivelmente será daqui a uma semana ou duas. É que ele não está cá, está no estrangeiro e só pode vir a partir da próxima semana.

-Não é cedo demais? Afinal, esta espécie de conferência devia ser o culminar do projecto...

Era cedo demais para mim. Como podia preparar-me para conhecê-lo em uma semana. A Isabel estava a precisar muito de mim e eu tinha-me prometido que ia ajudar em tudo o que pudesse. Ia precisar tanto de me enfurnar no escritório sozinho, com a porta fechada e em silêncio, talvez até escrever o que pretendo dizer, reler o Laudo Amorem e todos os ensaios e comentários que escrevi. Tinha de fazer uma preparação exaustiva. Já para não falar que tenho as aulas e uma pilha de testes para corrigir...Onde é que vou arranjar tempo para tudo? Todo o tempo do mundo nem seria suficiente para me preparar para conhecer o Almeida de Andrade, quanto mais uma ou duas míseras semanas. Estava a desesperar. Queria adiar esse momento, pois ele tinha de sair perfeito, não podia ser concebido à pressa, sobre o joelho. Tinha de ser um momento bem reflectido...

-Pelo contrário, esta conferência pretende abrir o apetite dos miúdos, provocar as suas mentes. Os jovens gostam de se sentir importantes, e normalmente empenham-se quando lhes damos um voto de confiança. Estou certo que o Almeida de Andrade vai saber convidá-los a um bom trabalho – eu mal o ouvia de tão perdido que estava nos meus pensamentos... – Achas que na segunda-feira podes ir à minha aula falar com eles? Já consultei o teu horário, é quando tens o furo entre a aula da uma e a das três, podes ir? Vicente, estás a ouvir-me?

-Sim, sim. Sim, claro. Segunda, às duas. Com certeza, podes contar comigo.

-Muito obrigado. Bem, eu vou para a minha aula. E tu vê se vais para casa, não precisas de trabalhar hoje. Vai cuidar da tua esposa e da tua filha que bem precisam.

E não precisava mesmo de trabalhar. Fui à escola apenas para me encontrar com o Carlos e descobrir o tal mistério. Agora que já o conhecia, podia ir embora. Ir para casa e meter-me no escritório enquanto tinha sossego e adiantar o máximo de trabalho. Logo, logo, Isabel ia estar em casa e seguir-se-ão noites em claro a cuidar dela, tinha de aproveitar o tempo. Levantei-me e fui-me embora da sala dos Professores.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Capítulo II - Parte 2: O segredo

Helena consentiu amedrontada. Não parecia ter acreditado muito nas minhas palavras. Eu não queria que ela passasse os dias em casa a tratar da casa e da minha filha. Ela precisava de trabalhar, de sair, de ter contacto com as pessoas. A Helena não fazia, de modo algum, o tipo “caseiro”. Até a habituar-se a passar os sábados à noite em casa depois que casámos foi um grande suplício. Eu dizia-lhe para ela ir sair com as amigas, ir ao cinema, ir ao centro comercial mas ela dizia que só ia comigo e eu jamais fui. Passaram-se alguns meses e ela habituou-se a ficar em casa, infelizmente. Digo “infelizmente” porque se ela fosse sair, eu podia ficar em casa descansado, mergulhado na paz e no silêncio de um sábado à noite sereno e calmo, sem a sua voz estridente sempre a perguntar-me se estou bem, se quero beber um chá, se me apetece uma fatia de bolo, se quero ir ver um filme que está a dar na televisão. Hoje em dia, Helena já nem me aborrece com essas coisas. Ela sabe que, a partir do momento em que me sento na poltrona do escritório, aquele é o meu mundo e é escusado ela tentar entrar lá.

Fui até à janela do quarto. Sentia-a seguir os meus passos com os olhos, tentando perfurar os meus pensamentos. Ela sabia que não conseguia falar comigo. Eu tinha construído uma barreira de ferro entre nós para que pudéssemos viver juntos em paz, com o mínimo de discussões possíveis. Da janela, vi a manhã, o sol brilhando entre as nuvens cinzentas prometendo chuva a qualquer instante. Estava frio lá fora e eu nem sequer tinha trazido um sobretudo, muito menos um guarda-chuva. Olhei o meu carro no estacionamento e depois consultei o relógio. Voltei para perto do berço e fiz de novo uma festa sobre a manta que cobria Isabel. Abaixei-me e tirei do saco, as peças de roupa que Helena me tinha pedido.

-Estão aqui as coisas que pediste... – disse.

-Obrigada, – respondeu.

-Quando é que voltas para casa?

-Em princípio saio amanhã de manhã. Podia sair hoje ao fim da tarde mas pedi para sair amanhã de manhã...

-Eu vai sair, vou passar pela escola. Volto à hora do almoço.

-Vicente...Voltas mesmo?

-Não te disse já que sim? – Olhei uma última vez para Isabel e disse: - Adeus, filhota, até logo.

Quando saí do quarto lá vieram as duas mães ter comigo e pedir-me satisfações: para onde ia, porquê, quando voltava...Começava a ansiar para que Isabel fosse para casa para não ter mais que aturar aquela gente a meter-se na minha vida e a tentar controlar-me a toda a hora. Parecia que tinham medo que eu fosse fugir. Eu ia lá abandonar a minha filha...Sinceramente! Consegui esquivar-me à maioria das perguntas ainda que elas ainda me tenham seguido até ao carro. Finalmente, entrei e já não conseguia mais ouvi-las. Liguei o motor e fui embora dali. Era sempre a mesma cantiga: precisava de tratar melhor a Helena, ser menos duro com ela, ela não merecia, era boa rapariga, agora tinha uma filha, tinha de pensar só nela...Como se eu não soubesse bem tudo aquilo. Já tenho vinte e seis anos, sou novo, mas já não sou nenhuma criança e já era mais do que altura de me deixarem conduzir a minha vida sozinho. Eu responsabilizo-me pelos meus erros e pelos meus actos.

O parque de estacionamento da escola já estava cheio. Tive de deixar o carro do outro lado da rua. Não havia uma passadeira ali perto, agora entendia o risco que os miúdos corriam sempre que iam para a escola. Não podia deixar Isabel correr riscos semelhantes. Estava quase a tocar para a saída no momento em que entrei para a sala dos professores. Num ápice, tornei-me o centro das atenções. Todos vieram felicitar-me e perguntar pela minha filha. Os professores do meu grupo até se juntaram e compraram um álbum de fotografias para me oferecer. Foi um gesto simpático que prontamente agradeci. Porém, se pudesse fugir a todos aqueles cumprimentos e perguntas tinha fugido. O que eu queria mesmo era encontrar o Carlos. Estava ansioso por saber as novidades. Aproximei-me da professora de Português de uma das minhas turmas e perguntei-lhe se tinha visto o Carlos Figueiredo. Ela respondeu que o tinha visto de manhã, na primeira hora. Ao menos ele tinha vindo dar aulas, era uma questão de tempo até ele chegar e esclarecer-me tudo. Tocou para o intervalo. Sentei-me no sofá a beber uma bica, com os olhos fixos na porta. Professores entravam, outros saíam e do Carlos, nada. Estava a desesperar. Que estaria ele a fazer? Estaria a dar teste? Aquela espera estava a tornar-se insuportável. A tal professora de Português, a Maria do Carmo Rocha, veio sentar-se ao pé de mim.

-Pareces nervoso, Vicente...Algum problema ou ainda é o choque de ser pai que te deixa nesse estado?

-Não, estou nervoso porque precisava urgentemente de falar com o Carlos e ele não aparece. Tenho de apanhá-lo antes que ele entre para outra aula... – de repente – ocorreu-me perguntar-lhe – Sabes alguma novidade do Almeida de Andrade?

-Do Almeida de Andrade? Não, por enquanto, não... – ela fez-me um olhar malicioso que me deixou desorientado. Ela parecia saber mais do que estava a revelar – Mas o Carlos vai contar-te alguma coisa sobre o Almeida de Andrade? É que ele não devia, pelo menos, por enquanto...

-Vai...Quer dizer, não vai. Ele disse que sabe de uma coisa relacionada com o Almeida de Andrade mas que não podia contar e eu queria ver se descobria o que é... – menti. Tinha que disfarçar, não podia prejudicar o Carlos se ele ia partilhar comigo alguma espécie de segredo.

Por fim, o Carlos chegou, tinha de disfarçar o meu entusiasmo. Pelo que tinha entendido, ele não havia de poder contar-me o que sabia ali, à frente de todos. Em vez de me levantar e correr para ele, esperei que ele me visse e viesse ter comigo.

-Então como vai o Papá? – perguntou com um sorriso e estendendo-me a mão.

-Vou bem, muito obrigado.

-E a menina e a mãe? Estão bem? Como se chama a princesinha?

-Estão bem sim, obrigado. Chama-se Isabel.

-Oh Carlos – interrompeu Maria do Carmo - tu sabes que não podemos contar nada daquele segredo a ninguém, pois não?

Carlos fitou-me com um olhar fulminante e destrutivo...Como se eu tivesse culpa...Ele não me tinha avisado que era “informação confidencial”, segredo de justiça ou qualquer coisa do género. E a cada reacção estranha eu só ficava mais intrigado. Que seria que eles sabiam e não podiam revelar? Será que não me podiam contar? Eu não partilhava o segredo com mais ninguém, guardá-lo-ia só para mim.