sábado, 18 de outubro de 2008

Capítulo II - Parte 1: "Não marques presença agora que depois ela não te reconhecerá mais"

Acordei com o som irritante do telefone de casa. Detestava acordar cedo e muito menos com o som de alarmes. Gostava de acordar por mim próprio. O meu horário era predominantemente à tarde. De manhã sentia-me demasiado cansado e ensonado para ter rendimento e poder cativar aqueles miúdos para a língua francesa. O mais cedo que acordava era às dez da manhã quando tinha aula ao meio-dia. Às vezes tinha de acordar cedo para ir a reuniões mas nesses dias, quase sempre pedia à Helena que me acordasse. Olhei para o relógio: oito da manhã. Tinha dormido bastante. As costas estavam doridas da noite no sofá. Não precisava de atender o telefone para adivinhar quem seria, só podia ser a minha sogra.

-Estou? Vicente? O que é que se passou contigo? Estávamos preocupados! Não vieste cá trazer a camisa de noite da Helena, nem voltar a ver a tua filha sequer! A Helena ficou preocupada pois nós ligávamos, ligávamos e ninguém atendia nem o telefone, nem o telemóvel. Que se passou, Vicente? Graças a Deus que a Helena lembrou-se de ligar para a Dona Elvira do terceiro andar e ela disse que te viu chegar a casa e que o teu carro estava no parque, senão já estávamos aqui em cuidados e...

-Eu estou bem, Francisca, não se preocupem...Peço desculpa mas deixei-me dormir e não ouvi o telefone tocar até agora. Não era preciso preocuparem-se...A Isabelinha está bem?

-Está, está...Ela, pobrezita, é pequenina nem se apercebeu de nada. Não marques presença agora que depois ela não te reconhecerá mais...A Helena é que ficou muito nervosa, os médicos deram-lhe umas coisas para ela relaxar...

-A Helena já devia saber que eu sou despistado, é ridículo ela apoquentar-se por minha causa...

-Vicente, filho, ela preocupa-se contigo, é tua esposa e ama-te muito.

-Francisca, fique descansada. Eu vou tomar um banho, tomar o pequeno-almoço e vou já para aí, está bem? Até já.

Fui até à cozinha e liguei a máquina de café. Tirei um café bem forte e fui vestir-me. Sentia-me zonzo. Era horrível acordar com o som do telefone e os gritos da minha sogra às oito da manhã...Sinceramente, seria impossível conceber pior amanhecer. Voltei ao escritório e liguei o telemóvel, entre tantas mensagens de voz da minha sogra tinha uma do Carlos, um colega meu da escola. Estranhei o Carlos ligar-me tão tarde, a mensagem tinha sido deixada às onze e meia. Calculei que quisesse felicitar-me pelo nascimento da minha filha, a esta hora, todos já deviam saber. A mensagem era, no entanto, bem diferente do esperado: “Vicente, liga-me com urgência, tenho uma novidade fantástica para te contar...Está relacionado com o Almeida de Andrade!”. O Carlos era outro “fã” do Laudo Amorem, era professor de História mas adorava Literatura. Era dos poucos professores inteligentes e cultos daquela escola. A grande maioria dos professores, sobretudo os de línguas eram uns frustrados que nem sabia as matérias que ensinavam e muito menos sabia ensinar. Não é que eu seja um professor exemplar, mas pelo menos, estou ali porque quero e porque gosto. Tenho paixão pelas línguas e pelas literaturas e sei bem o que ensino. As crianças, geralmente, só se queixam de mim quando faço uns testes mais difíceis. A verdade é que é preciso começar logo a separar o trigo do joio antes de eles entrarem nas Faculdades e tornarem-se frustrados...como os meu colegas de profissão lá da escola...

Que teria Carlos para me dizer de tão importante e urgente sobre o Almeida de Andrade? Teria lançado um novo livro? Teria revelado a sua identidade? Não aguentei mais a curiosidade e liguei-lhe. Do outro lado da linha, ninguém atendia...Já passava das oito e meia, o Carlos já devia estar a narrar os triunfos da Revolução de Outubro...Teria de aguardar. Peguei nas chaves e saí em direcção ao hospital.

Quando cheguei lá, tive de escapar-me estrategicamente ao sermão da minha sogra e pior, ao sermão da minha mãe que também estava lá. Ambas formavam um coro e entoavam uma cantada cujo refrão era qualquer coisa como: “Agora tens uma filha, não podes ser tão irresponsável. Tens de deixar de pensar só em ti e no teu trabalho, a tua prioridade agora é a tua filha”. Engraçado, elas pareciam ter medo de dizer o nome dela, sobretudo a minha mãe. Diziam sempre “ a tua filha”, “a nossa neta”, “a menina”, “a bebé”...

Entrei de rompante no quarto de Helena. Ela já estava acordada, ao contrário de Isabel.

-Vicente! Assustaste-me, pensei que tinha acontecido alguma coisa.

-Desculpa, Lena. Adormeci...São coisas que acontecem, não é preciso crucificarem-me por isso. Já bastou o sermão da tua e da minha mãe!

Ela não disse nada, apenas condenou-me com o olhar. Ela já nem se revoltava contra mim, podia fazer alguma reclamação, algum comentário mas sempre muito a medo, sempre com um tom calmo e carinhoso. Isso irritava-me. Nunca lhe fiz nada para ela ter medo de mim. Ignorei a situação e aproximei-me do berço. Isabel continuava serena e adormecida, tal como a tinha deixado. Embalei suavemente o berço e aconcheguei as mantas ao seu corpo quente e pequenino. O seu rosto já tinha perdido a vermelhidão de ontem e as rugas começavam a desaparecer. Estava ansioso por ver aqueles olhinhos bem abertos, perceber a sua cor e senti-los a olharem para mim e verem-me. Tive uma vontade enorme de acordá-la, de pegá-la ao colo, de sorrir para ela e vê-la sorrir para mim. Não podia, devia deixá-la descansar. Ela tem de aproveitar enquanto pode, quando começar a correr de casa para o infantário, nunca mais ela vai dormir com esta serenidade.

-Vicente...Vais ajudar-me a tratar dela, não vais?

-Vou...claro...Que pergunta mais estúpida!

-É que...Bem...Vendo-a aí, a dormir, eu estava a pensar...Eu não sei é se seria bom...Mas se tu não me ajudares acho que não há outra alternativa e eu não sei se vais mesmo ajudar-me...É que se não me ajudares...

-Helena: desembucha! – arrependi-me de ter gritado. Isabel podia ter acordado.

-Eu estava a pensar deixar de trabalhar para ficar a cuidar dela.

-O quê? Tu? A sério? – estava espantado. Logo a Helena, que sempre foi daquelas feministas irritantes que não queriam viver à custa de um homem...Perguntava-me se tinha entrado no quarto errado – Ouve, não precisas de fazer isso. Eu ajudo-te. Vais ver que tudo se vai resolver. Tantos casais trabalham e cuidam dos filhos. Não te preocupes com isso...

Capítulo I - Parte 4: Em vez de uma Isabel tinha duas...

Qualquer dia ainda tenho algum acidente de carro...Perco-me nos meus próprios pensamentos de tal forma que a estrada desaparece e às tantas já nem sei para onde vou. Queria ir para casa, acabei por fazer o caminho para a escola. Não posso distrair-me quando estiver a cuidar de Isabel.

Quando entrei em casa, foi estranho. Nem sei explicar porquê...A primeira coisa que fiz foi dirigir-me ao futuro quarto da minha filha. Todo pintado de amarelo suave, o berço de madeira ao centro. A cómoda bem fechada cheia de roupas e mantinhas que rapidamente se revelarão poucas. A cadeira de balouço que eu fiz questão de comprar apesar da relutância de Helena...Ali pretendia passar muitas noites a vigiar a minha filha. Tenho tantos planos para ela...Ir passear com ela, dar-lhe banho, ensiná-la a andar, a falar, cuidar dela, dar-lhe de comer, vê-la sorrir, brincar com ela...Por um lado, estou ansioso que ela cresça, para poder levá-la a museus, ensiná-la a ler, mostrar-lhe tantas coisas. Mas por outro, quero que ela cresça devagar, para eu poder aproveitar cada segundo e para que ela não se aperceba da crueldade e miséria que existe neste planeta. Quem me dera tê-la trazido para um mundo melhor...Saí do quarto de Isabel e fechei a porta com cuidado.

Entrei no meu quarto, a cama com a colcha castanha ainda estava desfeita...Helena não a tinha feito. Provavelmente, custava-lhe baixar-se. Ela era demasiado arrumada para sair de casa sem fazer a cama, a não ser num caso excepcional. Tive pena daquele quarto...Tão diferente do de Isabel que transbordava vida e força. O nosso quarto tinha as paredes cor de amêndoa, a cama baixa ao centro com duas mesas-de-cabeceira de cada lado, uma cómoda com um espelho e dois tapetes de Arraiolos em tons de azul. Era um quarto pequeno e vazio, desconfortável e frio. As paredes eram nuas e nada brilhavam com a parca iluminação. Quis colocar lá dois quadros, reproduções de Monet oferecidas por um amigo meu. Helena recusou. Disse que detestava o Impressionismo, que aquilo não era pintar, era esborratar. Sugeri que escolhesse ela uns quadros para cobrir as paredes e ela respondeu que não gostava de quadros, apenas retratos ou fotografias. Consenti que ela colocasse lá o que quisesse, porém ela confessou-me que fazia-lhe impressão imagens de pessoas no quarto, sentia-se observada em momentos em que só queria gozar da sua intimidade. Não insisti mais. Até hoje as paredes continuam despidas, ausentes de sentimento. Talvez um dia destes ainda coloque lá uma tapeçaria...De certeza que Helena nem vai notar. Para minha sorte, quase nunca frequento aquele quarto, apenas quando vou dormir e quando acordo, se bem que por muitas noites adormeci no sofá do escritório. Só entrei no quarto para ir buscar umas roupas da Helena. Abri a porta do roupeiro e procurei com atenção uma camisa de noite de algodão cor-de-rosa. Os meus olhos percorreram todas as roupas penduradas num cabide. O cheiro do perfume dela saltava e mergulhava sobre o meu rosto. Espirrei. Não é que não goste do aroma, Helena tem um excelente gosto para perfumes mas sou extremamente sensível ao álcool. Nunca tinha reparado na constância das cores que ela vestia: cinzento, preto, branco, vermelho, castanho...Saias, calças, camisolas, casacos...Peças com classe que ela levava horas a escolher nos centros comerciais no final do mês. Os meus olhos tropeçaram sobre uma saia preta, a mais curta que ela tem, acho eu. Observei a cintura estreita e pensei na infelicidade de Helena se nunca mais recuperar a silhueta esbelta. Lembrei-me de abrir a gaveta e finalmente, encontrei a roupa de noite, vasculhei e lá encontrei a camisa de noite de algodão cor-de-rosa. Coloquei dentro de um saco e abandonei o quarto gelado.

Aquele silêncio de início de noite naquela casa atingiu-me e deixou-me melancólico. Uma sensação de solidão abateu-se sobre mim. Sentei-me na poltrona do escritório e lancei-me aos meus pensamentos. Há quatro anos que a minha vida havia sido invadida por um vazio desconfortável. No fundo, sentia-me dentro de mim como me sentia no meu quarto. Isabel tinha chegado, por fim, ela deveria completar o espaço vazio da minha vida, ela deveria fazer-me sentir melhor acerca do meu destino, ela deveria mostrar-me que tudo o que fiz no passado, todos os erros, todo o sofrimento, valeram a pena para poder conhecê-la, ser invadido pela força da sua presença. Helena não queria ter ficado grávida, foi um acidente...Ela achava que não era a altura certa e dado nós ainda sermos novos, podíamos esperar mais uns tempos para termos filhos. Eu também não queria ser pai, nem queria que Helena ficasse grávida. Tanto eu como ela ficámos chocados com a notícia e equacionamos mesmo a hipótese do aborto mas acabámos por concordar em ficar com a criança. Helena pensava que era uma boa oportunidade para melhorarmos a nossa relação e tentarmos reconciliar-nos. Eu acomodei-me com a ideia de finalmente ter uma âncora para este barco à deriva. Isabel foi crescendo na minha imaginação, no meu modo de estar, como uma força e ânsia de viver perdida há dois pares de anos. Isabel (e tinha de ser Isabel) proteger-me-ia de novos sofrimentos, ausentaria de mim esta angústia permanente por não ter o que mais queria. Isabel trar-me-ia de novo o conforto de uma vida saudável e constante. Isabel trar-me-ia a alegria...A minha filha, a quem eu tinha dado vida, dar-me-ia vida também.

Tinha fome, desde o final da tarde que o meu estômago não conhecia alimento. Tinha bebido um café de máquina no hospital. Sabia que devia levantar-me da poltrona e ir fazer qualquer coisa para comer. Talvez houvesse algum resto de comida no frigorífico, alguma pizza no congelador, uma fatia de pão já me chegava...Porém, o meu corpo recusava-se a erguer-se da poltrona. Queria ficar ali e não me levantar mais. Comecei a chorar...Estava sozinho podia dar largas ao meu pranto como tantas vezes desejei. Chorei e chorei. Chorei de alegria, era pai. Chorei de tristeza porque, pensando melhor, estava agora ancorado a um porto para sempre mas o meu porto de destino estava bem longe. Ao menos, enquanto andava à deriva, tinha a esperança que o vento ou as correntes me encaminhassem para o meu destino. Agora, tinha aniquilado a esperança, tinha desistido, tinha abandonado o jogo e confirmado a minha derrota. Mesmo que quisesse, seria impossível voltar a viver como queria. Ela estava perdida, perdida, perdida...Essa palavra...Essa palavra assolava-me a toda a hora, a todo o momento. Não sabia até hoje porque a tinha perdido e a partir da hora em que Isabel nasceu, comprometi-me a desistir de tentar encontrar essa resposta. E pensei que isso aconteceria naturalmente, não seria um acto voluntário. A minha mente estaria tão ocupada com a minha filha que deixaria de pensar nela. Agora apercebi-me que nada disso vai acontecer. Isabel fez-me, faz-me e far-me-á muito feliz mas não vai apagar o meu passado, não vai apagar as minhas angústias, não vai apagar aquela perda que, agora acredito, vai permanecer comigo para sempre. Ainda agora Isabel tinha nascido, todo aquele êxtase e entusiasmo do incógnito e indefinido futuro estava dentro de mim e mesmo assim, os meus pensamentos antigos não foram varridos. Teria errado? Iria fazer Isabel sofrer? Teria feito mal em querer reproduzir naquela gentil criança todos os meus sonhos irrealizáveis? E porquê? Por que é que continuava a pensar nas mesmas coisas? Não teria já passado tempo suficiente? Não teria já acumulado experiências de vida em número bastante para me fazerem esquecer tudo o que vivi? Seria impossível arrancá-la da minha cabeça quando ela tinha saído com tanta pressa e facilidade da minha vida? Pensava que Isabel ia substituí-la, até lhe dei um nome igual...Agora, em vez de uma Isabel tinha duas...

Adormeci sem sequer me recordar que devia passar pelo hospital.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Capítulo I - Parte 3: Laudo Amorem

Eu já li muitos livros. Muitos...mas mesmo muitos! Possuo uma vasta biblioteca no meu escritório lá de casa. Passo horas nas bibliotecas públicas e pelo menos um quinto do meu salário mensal (que não é muito!) é esbanjado em livros e nunca na minha vida, nenhum me tinha marcado como Laudo Amorem. Talvez porque me sinta identificado com a história. Porém, não posso negar nem ignorar a riqueza e profundidade deste livro. Já o li umas vinte e poucas vezes no curto espaço de um ano. Tenho duas cópias, uma que anda sempre comigo, outra perto da minha mesa-de-cabeceira. Fiz todo o tipo de pesquisas acerca da obra e do autor, sem ter sucesso algum. Finalmente, escrevi para a editora a pedir algumas informações e a resposta que obtive foi: “O autor de Laudo Amorem optou por manter o anonimato usando, por isso, um pseudónimo. É impossível encontrar entrevistas ou mesmo artigos deste autor pois ele nega-se a revelar a sua identidade. Dado o estrondoso sucesso do seu primeiro romance, toda a comunidade literária e o público estão a tentar convencer o autor a revelar-se e esperemos que seja uma questão de tempo. Podemos apenas adiantar alguns dados biográficos que podem amansar a sua curiosidade. Almeida de Andrade ainda não completou trinta anos, estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no curso de Línguas e Literaturas Clássicas e fez várias incursões pelo estrangeiro...”. E nada mais me disseram...”Tácticas de marketing”, pensei. Por que razão um artista não haveria de querer ser reconhecido pela sua obra? Não faz sentido. Nunca mais procurei nada sobre ele, resta-me acreditar que provavelmente, eu e ele já nos cruzámos pelos corredores da Faculdade de Letras. Afinal, eu também ainda não alcancei os trinta anos e estudei lá durante seis anos. Foram tempos amargos os da Faculdade...E não foi por causa do curso...

Pelo título, era fácil antever a formação latina do autor. Contudo, a obra estava longe de qualquer escritor latino. Era uma história tipicamente Romântica envolvida num lirismo excepcional. Parecia um poema em prosa tal era a riqueza semântica e sonora de cada frase. Laudo Amorem é isso mesmo: um louvor ao amor. Em linhas curtas e correndo o risco de desprestigiar o autor com o meu resumo, é a história de um jovem que sempre sonhou com um amor de verdade e quando finalmente o encontra, perde-o tragicamente num acidente e tenta conviver com essa dor sem nunca se revoltar contra o seu destino ou deixar de acreditar no amor. A última frase do livro, é quando Miguel (o nome da personagem principal) está às portas da morte e diz: “ A minha vida, dediquei-a a ti, Amor, que assim também seja a minha morte”. Daí o título, “eu louvo o Amor”. Há pobres almas insensíveis que acham tudo isto piroso...Eu? Eu acho magnífico e perfeito. Tomara que o Almeida de Andrade já tenha outro livro na forja.

Foi precisamente a pensar no livro que saí do hospital e fui para casa. Helena ficou a descansar e Isabel, muito sossegada, a dormir no berço. Os médicos disseram que tinham feito todos os exames e que ela estava perfeita, não detectaram qualquer problema. O meu coração sentiu um alívio. Isabel estava preparada para o mundo fisicamente, pelo menos. É mesmo linda a minha filhota. Não é muito parecida comigo...Talvez seja nos lábios finos...Também ainda não a vi suficientemente perto de mim nem observei as suas expressões. Curiosamente, não achei traços da Helena nela...Mas o meu coração sabia que aquela era a minha pequenina filha. A minha maior e eterna riqueza. Custei a abandoná-la, deixá-la para trás...Tive medo que acontecesse alguma coisa e não estivesse lá para acudi-la. Algo me diz que este vai ser um sentimento permanente na minha vida.

Quando Isabel for para casa, vou adormecê-la lendo-lhe as partes mais belas do livro. Talvez nem precise de lê-las...Sei tantas passagens de cor, como aquela do diário de Miguel. “...Vi-a aparecer entre os recortes da lua esbatendo-se no rio escuro. Senti-me estranho, hesitante entre o prolongamento daquele doce esperar e a ânsia de detê-la com força nos meus braços. Ela foi avançando passo a passo com serenidade. A cada centímetro, o sorriso ia desenhando-se nos meus lábios, tornando-se cada vez mais luminoso. Luz da alegria? Luz da Lua? A luz era a dela...Chegou perto de mim, num gesto puro, abstraído da contenção dos meus sentimentos, beijou-me a face. O seu cheiro primaveril naquele início de noite de Inverno inundou-me os sentidos. Senti-me a desfalecer. A cair perdido como as gotas de chuva miúda. Puxei-a contra mim e beijei-a...”. Isabel gostará. É uma longa cena esta em que Miguel beija Lídia pela primeira vez. Dois capítulos longos que pretendem ilustrar o quão longa foi a espera de Miguel por aquela noite. O leitor dá consigo mesmo a pedir para o tempo passar mais depressa e finalmente vê-los juntos. Não seria esse o próprio sentimento de Miguel?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Capítulo I - Parte 2: De onde ela veio

A enfermeira entrou no quarto e levou Isabel. Disse que tinham de fazer-lhe uns testes para ver se estava tudo realmente bem e que depois traziam-na para o quarto de novo, num berço. Antes disso, escreveu numa fita o nome dela e atou-a ao seu pulso pequenino. Nunca tinha ousado escrever o nome Isabel Vaz embora constantemente o tivesse no meu ouvido, tatuado no meu coração. Apesar da letra torta e exageradamente redonda da enfermeira, achei a combinação dos dois nomes perfeita, como se sempre tivessem estado destinados a juntar-se. Assim que a enfermeira saiu, senti que aquela criança não era minha, era do mundo...

-Vicente...

-Estás bem? Afinal o que aconteceu? Onde estavas? – perguntei-lhe numa voz mais calma e menos agressiva.

-Estou bem, um pouco cansada...Estava na casa da minha mãe, sentada a conversar com ela e de repente comecei a sentir dores...Não fiz nada demais, garanto-te. O médico disse-me que estava tudo bem. Parece que a Isabelinha quis conhecer o mundo mais cedo, apenas isso...

-Espero que esteja tudo bem com ela e que ela seja perfeita e tenha saúde, isso é o mais importante.

-Sim...Isso e que os pais dela se amem se dêem bem...Vicente, temos de fazer um esforço, temos de acabar com as brigas. Somos adultos, não podemos levar a vida nisto. Além disso, temos uma filha, ela merece um ambiente saudável...É a nossa chance de voltarmos a ser felizes como já fomos...Nós amamo-nos, temos saúde, uma vida estável, podemos educar esta criança numa atmosfera formidável e transmitir-lhe estabilidade. Vamos fazer um esforço, vamos ser felizes...

Olhei para o chão...Ao longo destes quase nove meses o discurso dela não tinha mudado nem um pouco. As palavras eram as mesmas, até as pausas para respirar. Claro que ela tinha razão. Quase sempre ela tinha razão. Helena tinha vinte e cinco anos, menos um do que eu. Éramos casados há dois anos, ela era neta de um vizinho da minha mãe. Tinha vindo viver para Lisboa com o avô quando entrou para a Faculdade de Ciências. Era professora como eu, de Biologia. Era uma pessoa racional, apreciava a estabilidade e a serenidade. Gostava de crianças, era meiga e atenciosa, olhar directo e vazio, lábios finos e nariz bem delineado. Era magra, bem magra até engravidar. Foi uma das milhentas raparigas que a minha mãe me tentou impingir depois que terminei o meu primeiro namoro que durou cinco anos...Nem sei contar com quantas saí...Já nem me lembro das feições ou dos nomes delas...Helena marcou-me pela sua paixão por mim...Olhava-me com admiração, buscava afecto constatemente e por mais que a afastasse ela sempre voltava, disposta a pedir desculpa...Simpatizei com ela pois fez-me lembrar eu próprio...Acabámos por dar-nos bem, gostava da companhia dela...Ela era inteligente e divertida, distraía-me e surpreendia-me. Nunca me abandonava aos meus pensamentos, nunca me dava espaço para analisar os meus sentimentos. Estava a terminar o meu estágio e estava farto de viver com os meus pais. A minha mãe não parava de se intrometer na minha vida, o meu pai levava a vida a dizer-me para olhar o exemplo da minha irmã que aos vinte anos já estava casada e não precisava dos pais. Como comecei a trabalhar, juntei algum dinheiro mas não me sentia preparado para viver sozinho e arcar com todas as despesas. Numa noite em que saí com a Helena, já tinha bebido uns copos a mais e surgiu-me a ideia de pedi-la em casamento. Ela aceitou radiante perante o meu olhar estupefacto. As lágrimas de alegria correram-lhe pelos olhos, abraçou-me com força e beijou-me agradecendo e aceitando. Eu, frio e sem ter noção do que fizera disse “Ainda bem”. E foi assim que me casei. Por conveniência? Não...Por acaso...Foi o destino...Nada de especial...

Os preparativos e a cerimónia foram desde cedo marcados pelo meu desinteresse e alheamento. Parecia nem me aperceber de nada...Embora todos fossem contra o casamento e aconselhassem Helena a não fazê-lo, ela afirmava que nunca tinha sido tão feliz e eu, quando questionado, dizia que queria casar. Não ia faltar com a minha palavra e passar por adolescente inconsequente...Os meus tempos de loucura já estavam longe. Eu mesmo acreditava que era tempo de assentar, de avançar com a vida. Não havia razão para não me casar...ou será que havia? Se havia, na altura, não vi ou então preferi ignorar...

Foi assim que decidi unir a minha vida à de Helena. No início, tudo corria bem. Entendíamo-nos na perfeição, tudo corria às mil maravilhas. Estávamos a começar uma nova etapa juntos, era uma nova vida e isso fez com que nos uníssemos e partilhássemos tudo. Porém, o novo passou a velho, e a excitação de uma primeira viagem cedo se tornou no marasmo da rotina. Presos pelas diferenças de atitudes e pontos de vista, as discussões surgiram, uma atrás da outra. Primeiro mansas e suaves, nada que uma noite de amor e alguma paciência não resolvessem. Depois, sérias e intensas, de longa duração. Na noite em que concebemos a Isabel, tínhamos feito as pazes. A discussão tinha vindo à tona por causa de um livro...Um livro que adoro e ando sempre a ler e reler e analisar. Helena dizia que desde que tinha lido aquele livro, a nossa relação tinha esfriado, já não saíamos, não conversávamos...Tudo o que eu fazia era ler sempre aquele livro. Eu tentei explicar-lhe como aquela obra era excelente e como tinha uma ânsia enorme de dissecá-la, saborear letra a letra mas ela não entendeu. A Helena não aprecia muito literatura nem nunca poderia entender o significado de Laudo Amorem, uma obra demasiado complexa para os pobres de espírito. Helena estava longe de perceber a minha fascinação por aquele trabalho escrito por um escritor misterioso de seu nome Almeida de Andrade.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Capítulo I - Parte 1: Renascimento

Foi no dia dez de Outubro que a minha filha nasceu. Eu estava na escola, a meio da minha aula de Francês do oitavo ano. A Dona Eugénia bateu à porta e chamou-me para falar com ela. No corredor vazio, a sua voz fanhosa ecoava. Dentro da sala, os miúdos riam e falavam, alheios ao exercício que lhes tinha dado.

-Senhor Professor Vicente, a sua sogra telefonou a dizer que a sua esposa foi para o Hospital porque entrou em trabalho de parto.

O meu coração tremeu. A minha mulher estava grávida de oito meses e meio, o parto estava marcado para o dia vinte e dois de Outubro. O bebé estava bem e desenvolvia-se naturalmente. O impacto e a surpresa daquela notícia deixaram-me apreensivo. A minha filha ainda não tinha nascido, ainda não a tinha visto, nem tocado e já sentia que ela fazia parte de mim que era responsável por ela, por cuidar dela. Não podia deixar que nada lhe acontecesse. Voltei a entrar dentro da sala e avisei as crianças que a aula terminava por ali, eles saíram felizes, sem calcular que algo de grave poderia estar na origem daqueles quinze minutos de brincadeira extras.

Saí da escola transtornado. Entrei dentro do carro e conduzi o mais racionalmente que consegui até ao Hospital. Entretanto, liguei à minha sogra que me sossegou o coração dizendo que estava tudo a correr bem e que a criança “apenas quis sair mais cedo”. Quando cheguei ao Hospital, estavam todos lá: os meus sogros, os meus pais, a minha irmã, os meus cunhados e inclusive o meu sobrinho de dois anos. Senti-me frustrado. Falhado. Aquele momento devia ser meu e todos tinham chegado antes. Tinha combinado com o médico que ia assistir ao parto e falhei o momento mais alto da minha vida. Todos me olharam com desprezo, ou pelo menos foi isso que me pareceu. Senti-me culpado de ter saído para mais um dia de trabalho de manhã e não ter ficado em casa a zelar pelo possível nascimento da minha filha...

A espera angustiante não demorou muito tempo. Continuava a questionar-me se toda aquela situação era real...A minha filha, o meu fruto, estava prestes a vir ao mundo...

Um médico, com os seus quarenta anos, encorpado e de cara bem cheia, aproximou-se e limpou as gotas de suor.

-Os senhores são os parentes da Dona Helena Vaz?

Eu saltei do banco e empurrei o meu cunhado, gritando a um nível moderado:

-Eu sou o pai...quero dizer, o marido da Helena Vaz...

-Ah! Então muitos parabéns, tem uma linda menina, tem dois quilos e novecentos e oitenta e cinco gramas e quarenta e sete centímetros. É uma bela criança, muitos parabéns.

-Posso vê-la?

-Sim, vá ter com a sua esposa que ainda lá está com ela...

Corri esbaforido pelo corredor, passei por dezenas de quartos e cada vez mais me parecia estar distante daquele que tanto ansiava por encontrar. Finalmente, achei-o e entrei de rompante, sem sequer bater.

Olhei para a Helena. Segurava entre os braços um tesouro coberto de uma manta cor-de-rosa e olhava-o com ternura. Não se via nem um pedacinho da pele da minha filha, pelo menos do ângulo em que estava. A Helena estava suada, com um rosto exausto mas paciente e feliz. Ela sentiu-me mais perto e fitou-me embevecida. Naquele momento, parei. Tive um pavor tremendo de aproximar-me e vê-la, abraçar esta nova realidade. A realidade de ser pai. Estava ali, nos braços de Helena, a escassos centímetros de mim, uma vida, um ser pequeno e indefeso que tinha acabado de ser forçado a entrar no mundo, neste mundo...Que tinha eu para oferecer-lhe? Que garantias podia dar-lhe de uma vida sem dor? Como poderia protegê-la e impedir que alguma vez sofresse? Nenhumas! De repente, uma sensação de culpa e de erro invadiu-me. Tinha sido um miserável e egoísta em querer trazer um ser ao mundo sem nenhuma garantia de felicidade.

-Vicente... – Helena interrompeu-me – Não tenhas medo, vem cá conhecer a tua filha.

Avancei com lentidão e debrucei-me sobre o peito da Helena. Dentro daquela manta, muito embrulhada, estava ela: a minha filha. Só vi o seu rosto ainda vermelho, a boca semi-aberta, os olhos fechados, os seus movimentos eram breves e demorados, o seu cabelo fino, fraco e claro cobria a sua cabeça.

-É linda... – comentei – E tão perfeita... – estendi a mão a medo e toquei-lhe ao de leve sobre os cabelos – Olá, filha, sou eu...o teu pai.

Helena sorriu. Sorriu como se me achasse tolo ou louco, como se tivesse dito alguma insanidade.

-Queres pegar na tua filha? – perguntou-me baixinho.

-Eu?! Eu não...Ainda não me sinto preparado, ela é muito pequena e eu vim agora da rua, tenho as mãos sujas, a roupa suja...Não, é melhor não...

Ela não acrescentou nada, agiu como se nunca equacionasse a hipótese de receber outra resposta. Teria eu dito algum disparate de novo?

-Então e o nome? Parece castigo de Deus! Ontem discutimos por causa do nome e decidimos que quando ela nascesse logo pensaríamos no nome melhor para ela e hoje...ela nasce...Parece que não aguentou a curiosidade de saber como se vai chamar – disse Helena.

-Já sabes o que penso...e agora, olhando para ela, só vejo um nome, só imagino um nome para ela: Isabel...Isabel Vaz...

-Vicente, querido, vamos ser razoáveis...Vamos ser justos, eu não me importo que ela seja Isabel mas deixa chamar-lhe Laura antes...Laura Isabel não soa mal, pois não? É um nome bonito. Por que teimas em que seja apenas e só Isabel? Podes chamá-la Isabel eu chamá-la-ei Laura e quando ela for mais crescida, escolherá o que preferir...

-Não! Apenas e só Isabel! Não quero a minha filha com um nome comprido, já basta meter o teu sobrenome! Por mim era Isabel Vaz e mais nada. Para quê nomes compridos? Eu tenho um nome comprido e não gosto!

-E por que é que eu não tenho direito a escolher o nome da minha filha também? Afinal, carreguei com ela no meu ventre este tempo todo e...

-Ah! O velho argumento...Eu não tenho culpa de não estar biologicamente preparado para recebê-la no meu ventre, senão tê-lo-ia feito e muito melhor que tu que nem foste capaz de deixar de fumar pela tua filha...

-Vicente...Pronto, não vamos discutir, muito menos à frente dela...Que seja então, Isabel como tanto queres...Eu até gosto do nome...Seja feita a tua vontade e que a nossa filha se chame Isabel Machado Vaz. O importante é que ela seja feliz com os dois pais juntos e lutando pela felicidade dela...

Ignorei-a totalmente. Tinha conseguido o que queria. A minha filha tinha de chamar-se Isabel. É um nome tão bonito...Nunca conheci nome mais bonito, é um nome doce, forte, com carácter, com alma...Isabel era agora a minha vida. Ou deveria dizer que Isabel era finalmente, a minha vida...?