-Professor, eu escrevo...Quero dizer...Eu até tenho vergonha de confessar mas...eu identifico-me com aquilo que disse. Eu sou uma escrava da caneta. Escrevo mais por obrigação do que por gosto. Às vezes nem quero escrever porque ao escrever estou a reviver as minhas dores, mesmo as que nunca senti, mas não consigo evitar, quando dou por mim já é tarde demais...E sinceramente, não sei se isto me faz sofrer ou se me alivia, só sei que não posso controlar este apelo...
Os olhos de Ana Maria reluziam e as pessoas em volta fitavam-na com um misto de medo e admiração. Porém, era um modo de olhar muito diferente daquele com que Ana Maria me olhara. Era um olhar repreensivo, de quem julgava a pobre jovem insana. Fiz uma pausa e aconselhei mais baixinho:
-Não tentes dominar esse impulso. Será pior para ti. Se assim é, tu nasceste para escrever, é um dom e tens a obrigação de agarrá-lo com as duas mãos. Há poucas pessoas assim. Agora, se escrever te impede de seres feliz, não estranhes. Os escritores precisam da dor, precisam de ser vulneráveis, talvez também volúveis e inconstantes. Persegue a escrita servilmente para que os outros sigam a leitura conscientemente.
-Não me acha presunçosa e arrogante?
Questionou-me com um ar arrojado bem distante daquela fragilidade e fraqueza com que ela se apresentava habitualmente. Ana Maria era mesmo uma criança diferente, só a escolha daqueles adjectivos reflectia a maturidade vocabular que não conhecia tão bem.
-Mas porquê, Ana Maria?
-Eu estou aqui a falar que escrevo mas não pense que o que escrevo é alguma coisa de valor. Às vezes olho para os meus escritos e tenho vergonha. É tudo tão óbvio, tão previsível, tão infantil...Não produzo nada de útil. Embora, por vezes, escreva coisas inúteis mas, no dia seguinte, reencontro a folha amachucada, desembrulho-a e vejo que não está assim tão mau. Contudo, na generalidade, não aprecio o que escrevo e quanto mais tento elaborar pior é!
Sorri espantado! Se fosse possível conceber um molde do artista, Ana Maria encaixava-se nele na perfeição: a precocidade, a necessidade de trabalhar, a relação amor/ódio com o talento, a insatisfação permanente, a exigência de aperfeiçoamento...Ana Maria era uma escritora em potência.
-Não te iludas...Nunca aquilo que escrevas vai ser bom. Nunca te vais sentir merecedora de uma publicação. Em situações de teste ou confronto, vais sempre sair-te mal, isto se sequer te prestares a esse tipo de ocasiões...
Ana Maria descaiu os olhos castanhos. O metro estava a parar. Ela levantou-se embaraçada e arrependida e disse-me:
-Adeus. Até à próxima aula – e saiu.
Repensei nas minhas palavras e em como elas poderiam ter sido a causa daquela saída magoada. Saí antes das portas se fecharem e atropelei as pessoas à procura da minha aluna.
-Ana Maria! – ela não me ouviu. Puxei-a pelo braço – Ana Maria! Não! Entendeste mal!
-Não! O Professor conhece a minha escrita e sabe muito de literatura. Se diz que tenho a cabeça cheia de ilusões e que não escrevo nada de jeito, não se preocupe, eu nunca vou tentar comprar publicação de uma obra... – os seus olhos já lacrimejavam.
-Vês?! Entendeste mal! Antes de tudo, ainda és muito nova, tens que atingir uma certa maturidade psicológica e literária. Há um monstro criativo dentro de ti que terás de aprender a dominar. E depois, o que quis dizer foi que tu, TU nunca vais ser capaz de reconhecer o teu talento, os outros sê-lo-ão. E quanto às publicações...Isso nem é o mais importante, tu sabes...Pessoas como tu, como o Almeida de Andrade, não procuram a escrita para alcançar a fama, elas escrevem porque assim tem de ser. Muitas vezes, vocês têm de recorrer à publicação para terem um trabalho, outros porque são artistas e exporem a sua obra só fá-los-à lutar pela perfeição. Seja como for, tu nunca vais parar de escrever.
Ana Maria olhou para o chão. As pessoas continuavam a atropelar-se para saírem da estação e eu e ela permanecíamos ali parados a conversar sobre coisas que não interessavam a ninguém. Era tão raro encontrar alguém para poder falar destas coisas. Ana Maria devia sofrer, pensei. Tão madura com tão tenra idade, tão dotada num círculo que não a apreciaria. Sozinha num mundo que tão poucos conheciam. Aquela nossa conversa devia ter-lhe surgido como os raios de Sol inundando uma clareira. Ergui o pulso para ver as horas, já era tardíssimo. Na minha cabeça ainda martelavam as ignorantes e desprezíveis palavras de Helena. O pior de tudo é que tinha de voltar a vê-la e tinha saudades da minha pequenina Isabelinha. Gostava que fosse como a Ana Maria mais ainda faltava tanto tempo para ela crescer.
-Ana Maria, dá-me a tua mão – ela estremeceu e com delicadeza ergueu a mão nervosa e amedrontada. Tirei do bolso do casaco uma caneta, agarrei a sua mão e escrevi o meu telemóvel na sua pele tenra e macia – Se precisares de falar, já sabes...Depois de amanhã devo voltar às aulas. Agora tenho de ir. Até depois, Ana Maria. Foi um prazer conhecer-te melhor. Ela esmiuçou um “Muito obrigada” e um “adeus” que eu mal ouvi. Ana Maria falava muito baixo, quase num murmúrio. Era o medo de ser ouvida, o medo de falar naquela linguagem que ninguém mais entenderia. Mas eu entendia, ela não precisava de temer-me. Eu não ia rejeitá-la como os outros.
1 comentários:
"As palavras ignorantes de desprezíveis de Helena" ... mas será que na cabeça daquele fanático presunçoso só ele é que é inteligente e agradável? ... É que muito honestamente, ele é tudo menos isso e Helena é tudo menos ignorante e desprezível!
Eu diria que as palavras dela foram sábias!
A estupidez nata deste homem poe-me doida!
Ele não sabe ser agradável para ninguém, eu penso que deva ser a forma como usa as palavras e a frustração que tras com ele por viver uma vida vazia. A forma como ele diz a Ana Maria que para ela mesma, o seu trabalho nunca seria bom é de facto brusca para uma pessoa tão nova. Eu penso que ele tem razão e não estaria de todo a ser desagradável, mas a sua forma natural de ser assim o dita!
Mas de uma forma geral gostei da atitude que teve para com a aluna, ao mostrar-lhe que ela tinha valor e a encorajá-la a não parar de escrever. O que disse sobre ser escritor penso ter sido muito correcto e digno de um bom professor.
Espero ver como se irá desenrolar esta relação com a aluna e se Vicente acabará por ter alguma influência no trabalho de Ana Maria.
Mas confesso que o que mais me causa curiosidade é ainda o ultimato de Helena. Estou morta que passe o tempo para ver o desenrolar de suas palavras de ver se esta manterá ou não esse ultimato. O qual eu espero seriamente que ela mantenha.
Excelente história. Parabéns por este óptimo trabalho.
Abraço
Kangas
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