Entrei no metro e sentei-me num lugar vago daquela carruagem. Não me quis aborrecer procurando um lugar junto da janela e agora tinha de aguentar com aquele constrangimento de não saber para onde olhar. Em frente estava uma senhora, não podia ficar com o olhar preso nela...Para baixo também estava fora de questão, ela estava de saia e tão perto de mim que o meu ângulo mais fechado apanharia o suficiente das suas longas e elegantes pernas. Se quisesse fitar a janela acabaria por estar mais a olhar para o meu vizinho do lado do que para as paredes velozes dos túneis intercaladas com a vivacidade fugaz dos passageiros nas estações. Ao meu lado esquerdo tinha um grupo de jovens estudantes nos seus treze anos, também não podia ficar a olhar para elas...Que maçada...Se ao menos tivesse trazido um livro para me entreter...Optei por colocar as mãos sobre o meu colo e dobrei o meu pescoço o mais que pude para olhá-las. Rodei a aliança continuamente, era grossa e pesada...Fixei a minha visão nas janelas do comboio, aquela vista irritante para a escuridão com tão breves e fugazes momentos de luz e esperei que o tempo passasse depressa e saísse dali.
Quando troquei de linha, felizmente, o comboio estava mais vazio. Naquela carruagem estavam seis, sete pessoas, no máximo. Sentei-me só, ao fundo da carruagem. Sentia-me cansado e triste. Apetecia-me deitar a cabeça sobre os braços e chorar. Eu sei que não é uma atitude muito masculina mas sempre fui dado a estes rasgos de sensibilidade que, por auto-disciplina, fui aprendendo a encarcerar no meu peito. Reergui a cabeça para evitar que dos olhos húmidos a gravidade obrigasse as lágrimas a cair. Um pouco mais è frente, avistei um corpo feminino, franzino, enterrando um rosto num livro aberto. O corpo, não o reconheci, porém, a capa do livro, era-me mais familiar do que as minhas próprias mãos: era o Laudo Amorem.
Sempre fui tímido. Não daquele tipo de pessoas introvertidas que fogem das multidões e são capazes de permanecer numa sala cheia de gente sem falar com ninguém por um dia inteiro. Isso, para mim, já não é timidez, é uma doença psicológica. No entanto, eu nunca fui dotado daquele talento para iniciar conversas, travar conhecimentos e sentir-me confortável na presença de desconhecidos. Só o Laudo Amorem me podia injectar de coragem para mudar de lugar e sentar-me à frente daquela leitora e perguntar-lhe se estava a gostar da obra. No momento em que ela afastou o livro do rosto, desiludi-me. Pensava ter encontrado mais um admirador do Almeida de Andrade, afinal era já uma velha conhecida:
-Oh Professor, estou a gostar tanto...Não consigo parar de ler. É inacreditável o modo como as palavras se colam ao enredo... – confessou Ana Maria envergonhadamente e quase num tom desesperado.
-É...As palavras e a história amam-se quase como Lídia e Miguel, inseparáveis nos seus corações. Ainda bem que estás a gostar, é uma obra admirável e fascinante em todos os sentidos.
-Hoje não adormeço sem acabá-lo.
-Não tenhas pressa. O mais importante é ires reflectindo. Não basta ler uma obra, atravessar os olhos pelas palavras, mesmo que se as siga, como uma melodia encantadora. Isso não é ler, isso é ver as palavras ordenadamente. Ler é sentir, é entender, é absorver, reter, pensar, saborear...É pena que isso não se ensine na escola, nem na Faculdade sequer. Ninguém cultiva a leitura. Somos ensinados a ler para reconhecermos regras e estilos, escolas literárias, para aprendermos as leis da escrita e gramática; para interpretarmos ideias, conceitos dentro de um determinado contexto sem extrapolarmos a realidade linguístico-literária e vê-la com os nossos próprios olhos, os olhos da nossa vida... – nesta altura, Ana Maria encostou-se ao banco desconfortável – E com que propósito escrevem as verdadeiras mentes iluminadas? Não me refiro àqueles que o fazem por necessidade económica, por amor à fama ou por lazer, refiro-me a todos aqueles que escrevem porque são obrigados! Obrigados pelo seu espírito, impelidos por uma força divina, não sei...Só sei que não têm escolha se não escrever e caso não o façam, sentem a alma definhar, amarrotar-se como os rascunhos que eles não escreveram. Escrever, em si, tem de ser uma atitude meramente egoísta, de saciação pessoal, de submissão às palavras que se derramam pelas páginas como se fossem o próprio sangue do autor...Partilhar esse feito sim, é uma atitude generosa. Com isso aprendemos, evadimo-nos, adquirimos capacidades, o que for que seja que se procura na leitura mas ler mesmo, de verdade, é interiorizar a obra de um modo semelhante ao que o autor a exteriorizou...
Quebrei o meu discurso embriagado para respirar fundo. Ana Maria tinha as mãos cruzadas sobre o livro pousado no colo. Os seus olhos rasgados e castanhos fitavam-me num misto de êxtase e medo, quase hipnotizados pela força arrebatadora com que disparava as palavras complicadas em estruturas frásicas complexas. Ignorava a idade e tenra inteligência da minha alma. Ela dificilmente assimilaria a minha potência e ambição do meu discurso. Permaneci calado aguardando que o gelo do seu rosto se esbatesse. Mas o gelo não abrandava nem derretia, Ana Maria ruminava sobre cada palavra, deixava-a flutuar dentro de si até compreendê-la e sugá-la para si sem que nada pudesse acordá-la desta tarefa auto-proposta. Olhei-a com mais atenção e intensidade, como se a energia do meu olhar pudesse desenterrá-la de si mesma. O metro prosseguia veloz. A cada estação trocavam-se passageiros e lugares. Eu e Ana Maria continuávamos sem ninguém ao nosso redor mas a minha viagem naquele comboio estava a terminar, saía na próxima estação:
-Ana Maria? Estás bem? Eu saio aqui.
Ela ergueu os olhos e fitou-me com admiração.
-Eu também. Vou trocar de linha.
Ambos íamos apanhar de novo o mesmo metro. Fiquei sem saber se isso seria bom ou mau. Parecia-me que já tinha causado demasiado impacto naquele ser jovem e imaturo. Laudo Amorem já devia ter trazido as emoções dela à flor da pele e eu ainda fui discursar acerca do valor da literatura...Durante todo o percurso na estação da Alameda, Ana Maria caminhou sempre a meu lado, com um passo delicado e miúdo, sempre em silêncio. Só quando o metro chegou e nós nos sentámos é que ela falou.
-O Professor já pensou em publicar um livro seu?
Estranhei a pergunta.
-Um livro meu? Como? Eu não escrevo. Aliás, a única coisa que escrevo são os meus ensaios, as minhas reflexões sobre o Laudo Amorem.
Ela pareceu desiludida com a resposta. Desta vez, o comboio ia cheio de gente. Senti-me incomodado de partilhar a alta voz a minha paixão.
2 comentários:
Pobre Ana Maria! Eu concordo com Vicente em tudo o que disse sobre a literatura, contudo penso que inundar a jovem rapariga de exaltações sobre o que é a literatura talvez fosse um pouco brusco e precipitado.
E pergunto-me ... será que Vicente teria o mesmo tipo de comentário se se tratasse de uma outra obra, de um qualquer outro autor que não o seu tão venerado Almeida de Andrade e o seu Laudo Amore?
Ás vezes parece que tudo aquilo rodeia apenas uma obra, um autor. O típico fanático que não vê mais nada á sua frente que o objecto do seu fanatismo. Não quero com isto ser injusta claro, Vicente parece ser um homem bastante culto e penso não encaixar no perfil barato de um fanático normal.
Eu penso que a relação que ele tem com aquele livro é a vivência da sua própria vida, e daí isso se tenha tornado um fanatismo, uma obecessão.
Concordo plenamente com ele, nas escolas não se ensina a absorver a leitura. Tudo o que fazem é obrigar-nos a ler 500, 600 ou mais páginas nem as questionar. Também eu concordo que era necessário implementar nas escolas o gosto (o real gosto) pela leitura. Para que pessoas que não gostam de ler (como eu) começassem a ser cada vez menos. Bons hábitos de leitura culminam com um bom nível linguístico, e sem dúvida que se deveria apostar mais nisso.
Penso que ao colocares o tema nesta obra alertas o leitor para esse facto e isso é um factor muitíssimo positivo.
Outro aspecto positivo ... conseguiste por-me a concordar com Vicente. Algo bastante difícil nos últimos dias ...
Uma excelente parte, mais uma vez cheia de intensidade e valor literário.
Abraço
Kangas
Esta parte está cheia de palavras caras e com riquíssimo valor linguístico.
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