Voltei para casa mas não de carro. Deixei o carro no estacionamento do hospital. Amanhã de manhã, quando fosse buscá-las trazia o carro de volta. Por ora contentava-me a caminhar pelas ruas escuras e sujas da cidade.
Reflectia sobre a minha vida, a minha longa vida vazia onde fui abandonando tudo o que gostava desde o momento em que ela apareceu. O dia em que ela apareceu, a primeira vez que lhe toquei, o primeiro sorriso que lhe arranquei, o primeiro beijo, as promessas que fizemos...Todos esses momentos viviam dentro de mim e inundavam-me em alturas de melancolia e solidão como estas. Há tanto tempo que ela tinha partido...há tanto tempo e eu continuava sentir o cheiro da sua pele, o sabor do seu beijo, o tom baixo mas forte da sua voz...Não me perdoava. Os meses passavam e não me perdoava. Apesar de ter feito tanto para mantê-la perto de mim, não consegui. Parecia que quanto mais a prendia e lutava para a ter do meu lado mais a afastava para longe de mim. Ela era um espírito livre, quase um Anjo que se deixou emaranhar nas asas do Amor e eu nem soube aproveitar esse facto...
Às vezes pergunto-me se ela ainda se lembra de mim...Sim, às vezes pergunto-me isso porque a minha certeza geral é que ela pensa em mim e sente tanto a minha falta quanto eu sinto a dela. É possível eu pensar tanto nela e ela não pensar em mim. Não sei dela, nunca mais tive notícias dela desde que partiu naquele fatídico dia no avião da British Airways para Londres. Ocorreu-me ir ter com ela mas depois a raiva invadiu o meu coração e tudo o que mais queria fazer era esquecê-la e seguir com a minha vida. Quando dei por mim, estava casado, a minha filha tinha nascido e eu caminhava perdido pelas ruas de Lisboa com ela na minha cabeça e no meu coração...
Era ela que me impedia de ser feliz. Ou melhor, era não a ter que me impedia de ser feliz. Se a tivesse ao meu lado, tudo o resto correria bem. Fui tão tolo em não ter entendido isso logo. É o que dá quando miúdos se apaixonam por mulheres de verdade. E ela era uma verdadeira mulher em toda a acepção da palavra. Não era só bonita, era atraente, era sensual, era a mais bonita de todas. A sua timidez só a tornava mais apetecível. Era doce, gentil, meiga, suave, intensa...Tinha uma frieza e um calculismo inéditos que invulgarmente se casavam com uma extrema sensibilidade e paixão. Tinha um carácter forte, forte demais para eu aguentar. Um feitio horrivelmente dominador e arrogante, as suas ideias tinham sempre de se sobrepor e se tivesse de lutar sozinha contra o mundo, ela lutaria. Os seus ideais eram originais, por vezes entravam em contradição mas ela parecia ter sempre isso sob controlo, na manga guardava todos os argumentos estudados para defendê-los com veemência e credulidade. Era uma mulher tão forte e tão frágil ao mesmo tempo. Eu sentia-a quando ela caía nos meus braços e se entregava num beijo, a respiração ofegante quando lhe tocava...ela era frágil. Tinha momentos em que se retirava do seu pedestal e descia para me abraçar e procurar protecção. Eu adorava protegê-la, sentir o seu corpo pequeno aninhado no meu totalmente entregue. Outras vezes ela insurgia-se como um furacão pronto a avançar no seu caminho e a derrubar tanto quanto lhe aparecesse à frente. Tirava-me do sério, para o bem e para o mal.
Tinha (e tenho) noites em que acordo, encharcado em suor, desejando tê-la, possuí-la, deitá-la e amá-la até à minha exaustão, talvez até à minha morte, sentir o seu corpo exangue, extenuado, vibrando comigo, ardendo comigo, matar toda esta vontade que tenho de comprimi-la contra mim e que ela nunca me deixou saciar! Noutras noites acordo mais sereno mas igualmente encharcado em suor e lágrimas, querendo apenas abraçá-la, acariciar-lhe o cabelo, beijar ao de leve os lábios, afagar-lhe a mão, ouvi-la falar, contar as suas histórias, estar do lado dela....
Sou obcecado por ela, não tenho ilusões. Nunca entrei em paranóia o suficiente para ter alucinações nem nada, sou simplesmente obcecado. Ela não regula a minha vida, consigo concentrar-me noutras coisas, quem sabe até passar meio-dia sem me lembrar dela mas ela é sempre a primeira e a última coisa que penso quando acordo, pelo menos. Nunca olhei para Helena na esperança que o seu rosto aquilino e magro se transformasse no dela, estava são o suficiente para não crer nessa impossibilidade mas nada me impedia de desejar todas as noites que o corpo deitado ao meu lado, naquela cama larga e fria daquele quarto vazio e inócuo fosse o dela, o da minha mulher. Por ela esperei tanto tempo, por ela continuava a esperar. Acreditava no fatal destino, fatal destino que nos cruzou que a deixou marcar-me desta maneira, ela havia de voltar para mim exactamente do mesmo modo que partiu. A vida há-de se encarregar de ma trazer de novo nem que seja às portas da minha morte.
A noite caía e eu já nem sabia onde estava. Andei durante duas horas por ruas e ruelas, procurando sempre as mais escuras e desconhecidas ignorando o perigo. Quando dei por mim estava na Praça de Espanha, talvez fosse altura de apanhar o metro e voltar para o Hospital ou então para casa. Atravessei a estrada com prudência, aproximava-se a hora de jantar e o trânsito já estava mais disperso, mesmo assim, os mais atrasados ou apressados teimavam em carregar com força no acelerador. Não me podia queixar deles, eu fazia o mesmo. Ignorava as regras de trânsito, porém nunca conduzi sob o efeito do álcool nem nunca fiz daquelas manobras perigosas em plena auto-estrada. Apenas gostava de andar depressa e tentar passar à frente dos outros sem por as suas vidas em perigo, claro. Era um bom condutor na generalidade. Tinha carta desde os dezoito e ainda só tinha feito um arranhãozito no carro. Entrei no metro, na estação velha e suja. Tirei um bilhete, validei-o e aguardei o meu transporte. Optei por ir para casa, a última coisa que estava com vontade de fazer era ver Helena de novo, apesar das saudades que já tinha da minha Isabel. Tinha um longo caminho de metro para fazer. Tinha de trocar de linha duas vezes e percorrer essas linhas quase por inteiro. Pensava agora se não teria valido mais a pena ir de autocarro, pelo menos sempre via a cidade.
1 comentários:
Bem uma coisa este Vicente tem a seu favor ... é honesto!
Ao menos admite que é obcecado! E é mesmo ... como pode ele deitar-se com uma pessoa e pensar noutra. Que canalhice!
E claro ... nada nem ninguem poderia ser melhor que a tal mulher. Mas então se ela era assim tão boa porque nao apanhou o tal avião da British Airways e foi atrás dela? Sempre era melhor do que ser um egoista desonesto! Sei que me contradigo ao chamar-lhe agora desonesto ... mas ele é, neste contexto é. Ele é honesto consigo mesmo (mais uma forma de egoismo) ao admitir a obcessão por aquela mulher, mas é desonesto para com a pobre Helena a quem ele trata tão mal!
Confesso que ele hoje levou-me ás gargalhadas ... coitadinho! Abdandonado!!! Já me lembra uma certa música pimba que eu detesto e que toda a gente parecia adorar quando eu estava em Portugal! ... se ele se chama a ele próprio abandonado, o que se dirá de mulher e da filha, as quais ele se esquece de visitar por causa de um livro, de um homem misterioso e em última análise por causa de uma mulher que não o quiz e o deixou! Há gente mesmo estupida ... enfim ... conheço um caso assim!
Eu percebo o abandono que ele menciona, mas ate esse não terá sido causado por ele mesmo?! Parece-me que sim!
Uma coisa me surpreendeu, não imaginava o Vicente a dizer ter sentido raiva daquela mulher, pena que foi tão efémera!
Mais uma vez me repugnou o pensamento de que ... "a última coisa que queria ver era Helena" ... aquele homem é repugnante! Helena é a sua mulher, a mãe da sua filha, deveria valorizá-la, não tratá-la mal!
Enfim ... só espero ver se ela mantêm o dito ultimato e o força a tomar uma decisão de homem.
Ri-me quando ele se chamou a ele mesmo puto ... pelo vistos nada mudou, pois ali não vejo absolutamente traço nenhum de um homem!
Fico á espera que ele cresça!
Abraço
Kangas
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