-Ele? Ele quem?
-O tal do Almeida de Andrade! Por ele fazias tudo. Até abandonar a tua filha recém-nascida! Que tristeza, Vicente! Um homem! Ainda por cima nem o conheces, como podes amá-lo tanto?! Por que não me avisaste logo que a tua especialidade não era o sexo feminino?
-Cala-te, Helena! – tive de levantar a voz – Já chega, está bem? Já me ofendeste o suficiente por hoje. E agora és mãe, não tens mais idade para dizer disparates!
Meu Deus! Estava chocado, perplexo...As coisas que passavam pela cabeça daquela mulher! Eu amava o Almeida de Andrade!!! Um homem ainda por cima...Sei que não faço o género macho latino mas homossexual também não sou. Aprecio muito o sexo feminino, a graça do corpo feminino, o pensamento e sentimento feminino. Hoje em dia até parece estar na moda ser gay, na minha Faculdade havia muitos, ou pelo menos era o que se dizia, eu cheguei a ser amigo de um. Chamava-se Rodrigo e andava um ano à minha frente, tínhamos Literatura Francesa juntos. Era boa pessoa, grande apreciador de Zola. Não fazia nada o “típico” gay, era uma pessoa normalíssima e tratava-me tal como eu tratava qualquer rapariga. Mas eu, homossexual?! A Helena só podia estar doida! E mesmo que fosse, logo com o Almeida de Andrade que como ela bem disse, eu nem conheço? Será assim tão difícil de ver que os meus sentimentos pelo Almeida de Andrade são de admiração e gratidão? Por que é que fazem telenovelas sobre isso? Eu adoro a obra dele, adoro a maneira como ele escreve, o livro dele mudou a minha vida e trouxe-me um novo alento, sinto-me permanentemente em dívida com ele...Sim, é verdade! Isso é algum crime por acaso? Faria quase tudo por ele (não abandonaria a minha filha, claro) mas mesmo que fizesse tudo, esse “tudo” saber-me-ia sempre a pouco quando comparado ao que ele fez por mim. Eu adoro-o, eu venero-o...Não o amo...ou pelo menos não nesse sentido.
-Vicente, decide-te! Isto não pode continuar assim! Ou nós, eu, tu e a nossa filha, ou ele? Não há lugar na nossa família para esse homem... – disse já mais calma – Tu não vês que desde que ele apareceu tudo piorou. Tu mudaste desde que leste esse livro. E não me refiro só a passares a maior parte do tempo a lê-lo, refiro-me à tua maneira de ser. Antes eras mais brando, mais conformado, comportavas-te como qualquer outro marido. Éramos felizes. Agora não: rejeitas-me, tratas-me mal, afastas-me da tua vida. Parece que percebeste que sou um empecilho para ti, que já não me queres mais. E não queres, porque agora só queres o Almeida de Andrade...
-Helena, já leste o Laudo Amorem por acaso? Não leste. Não conheces a dimensão da obra. Ela mudou-me, de facto, predispôs-me a tentar fazer de tudo para ser feliz, tirou-me do marasmo em que vivia, onde tudo era sempre igual...Eu não quero ser mais um marido igual a tantos outros. Não há mal em ser diferente, qual é o mal de ser diferente? Mudei para melhor, talvez não seja mais aquela pessoa fechada e conformada que conheceste, que te pediu em casamento...isso quer dizer que sou uma pessoa pior?
-Não...Isso quer dizer que já não me amas e já não me queres mais...
Pensei para mim “Mas eu alguma vez quis?”. Se tentasse lembrar-me das coisas que me fascinaram em Helena para ter querido casar com ela, não conseguiria. Pertence tudo a um passado de um outro eu que sucedeu a um outro eu que sucedeu a um outro eu. A vida pode ser feita de metamorfoses. Quem disse que não passamos de lagartas que se transformam em borboletas até secarem para morte? Por que é que se faz sempre um drama tão grande sempre que alguém muda e se aprecia tão pouco a solidez e coerência das pessoas? Talvez porque o mundo está em constante mutação e as pessoas tenham medo do que é novo e diferente porque têm medo da mudança, daquilo que não conhecem e não sabem dominar. Até disso o Laudo Amorem fala. Miguel era um rapaz muito diferente antes de conhecer Lídia. Era um típico adolescente, interessava-se por carros, muitas miúdas, sexo, álcool. Vivia até de madrugada acelerando no seu carro rosa-choque alterado por essas modas do tuning, não ia à escola, vivia à custa dos pais...Até que um dia, ou melhor, uma noite, encontrou uma rapariga na discoteca. Era Lídia. “...Miguel olhou-a, singela na sua beleza recôndita e cativante. Quis aproximar-se dela mas não sabia como. Aquela frase típica de olá-querida-deixa-me-mostrar-te-a-diversão-da-vida que ele dizia a todas simplesmente não podia resultar com aquela menina. Era magrinha e baixa, os cabelos castanhos compridos caíam-lhe sobre os ombros e encobriam o seu rosto albino. Os grandes olhos castanhos estavam perdidos no nevoeiro de fumo como que esperando uma salvação. Naquele momento, Miguel sentiu que era a salvação que ela precisava ignorando que quem o ia salvar era ela...”. A partir daquele momento, Miguel mudou completamente, tornou-se um rapaz crescido, dedicou-se aos estudos...até vendeu o carro para poder oferecer um anel a Lídia. Ela nunca lhe pediu para mudar. Enquanto foram amigos, período que durou dois meses e meio, Miguel continuava a levar o mesmo estilo de vida e mesmo quando começaram a namorar ele apenas abrandou. Lídia não se importava, gostava dele mesmo sendo esgrouviado. Ele acabou por mudar naturalmente, sentiu que precisava de crescer. Ela também não se importou. Miguel ia precisar de mudar de modo radical e brutal para ela deixar de amá-lo. Com todos os defeitos, com todas as qualidades, Miguel e Lídia aceitavam-se e eram felizes porque se respeitavam enquanto indivíduos. Foi isso que me faltou, respeito pela pessoa amada. Nunca lhe dei espaço, nunca a aceitei como ela era, sempre tentei moldá-la aos meus desejos. Não percebi que apesar do amor que sentia por ela me fazer sentir como se fossemos só um, nós éramos de facto duas pessoas distintas...tanto que ela partiu e eu não pude fazer nada senão resignar-me...
É isso, o Laudo Amorem tirou-me do estado de resignação em que me encontrava, aquele em que se aceita tudo e não se luta ou se ousa contradizer os factos. Tinha apagado as memórias do passado, o Laudo Amorem fizera-me ruminar sobre os erros que cometi, sobre o modo como as coisas aconteceram. Deu-me vontade de achar um porquê para tudo, de tentar encontrar lógica na vida, na existência humana e sobretudo na minha própria existência tão seca e morta, de pensar em como deixei escapar as coisas boas da vida que se cruzaram comigo...Como podia não sentir gratidão por quem me salvou, quem me tirou do abismo? Mas será que valia a pena tentar explicar a Helena sequer? Ela nunca iria entender. Decidi sair do quarto do hospital. Longe já vai o tempo em que tinha paciência para discutir com Helena, sentir a podridão daquela relação a correr-me nas veias, procurar a pedra maior e mais aguçada para atirar ao seu coração...Agora deixei-me desses jogos, preferia abandonar o campo de batalha e deixá-la a gritar ou a chorar por mim, até perder as forças e cair sobre o chão despejando as suas armas em sinal de derrota. Com ela sempre resultava, bastava eu não responder para tirar Helena do sério e ganhar logo ali, naquele instante, um pedido de desculpas.
3 comentários:
É manhoso o gajo!
Este homem irrita-me!
Ele tem uma forma tão estúpida de se fazer passar por superior a toda a gente, que é realmente chocante!
Ele fala, como se o que ela diz fosse um absurdo ... "Será crime mudar?" ... até nem seria, se fosse mudar para melhor. Se ele acha que está num casamento falhado, não casasse, ou melhor saia dele. Não me parece mudar para "melhor", ser um abusador mal educado que trata a própria mulher com um desprezo cortante!
Gostei deste ultimato dela ... será que a pobre Helena abriu os olhos e decidiu mandar aquele abusador á fava?! Confesso que adorava que sim.
Neste momento da história gostava que Vicente ficasse sózinho, e desprezado por todos, para que sentisse o que a mulher sente por causa dele.
Abandoná-la a gritar sozinha ... acção típica de um cobarde. Quem não tem argumentos para enfrentar a verdade, foge dela, esconde-se. Será isto ser um homem melhor? Um cobarde? Parece que o conceito de melhoria dele está um pouco deturpado. Talvez para ele seja melhor, pois reavivou o tal passado ... mas então se quer viver de novo o passado deixe Helena em paz e lute pelo tal passado! Seria mais coerente!
Adorei a insinuação de Helena em relação ao seu sentimento por Almeida de Andrade. Não por que ache que ser homossexual seja algum descrédito ou doença, mas porque sei que para este tipo de homem tal insinuação cai que nem uma bomba! Ele mereceu tal comentário ...
Espero ansiosamente por amanhã. Sempre quero ver até onde vai Helena com o "Tens de decidir Vicente." ... espero que ela vá pelo que é melhor para ela.
Abraço
Kangas
Este homem mete nojo!
A melhor solucção é o divorcio, este homem merece ficar sozinho com o seu livro.
Grande história!
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