Pobre Isabel. Exausta de esperar dormia no seu berço, perante o meu olhar arrependido e o silêncio cortante e magoado de Helena. Não a olhei nos olhos. Tudo o que ela dissesse seria escusado. Eu ia defender-me com unhas e dentes, ia atacá-la, sabendo sempre, a todos os segundos que ela era a detentora da verdade. Nem a minha sogra, nem a minha mãe estavam lá. Tinham todos saído ao final da tarde. Desde aí, Helena tinha ficado sozinha e a chorar. “Depressão pós-parto”, disse-me a enfermeira. Consta que as mulheres, após darem à luz ficam muito sensíveis e emotivas, precisam de muita atenção e carinho.
-O senhor tem que ver que, enquanto está grávida, a mulher é o centro das atenções, os quilos, as estrias, a distância entre ela e o marido são naturais. Porém, quando a criança nasce, as atenções viram-se todas para ela e a mulher depara-se com as alterações do seu corpo, sente-se pouco amada pelo marido. O meu conselho é que dê tempo ao tempo mas sobretudo, dê muita atenção à sua esposa. Mostre que nada mudou e que a ama mesmo que ela não volte a recuperar a linha...
Não percebi porque motivo deixaram a Helena sozinha. Custava muito terem ficado ali a fazer-lhe companhia? Coitada. Não imaginava Helena no meio de uma depressão, fosse de que natureza fosse. Ela era pouco dada a emoções, sentimentalismos, coisas espirituais. Era uma pessoa bem-disposta e forte. Pelo menos conhecia-a assim. Talvez tivesse mudado com a gravidez, talvez até antes...Não sei, ultimamente não tenho pensado muito na Helena. Ela não podia deixar abater-se, a Isabel precisa dela forte e saudável. Voltei a entrar no quarto onde, Helena, com o olhar quieto e absorto fitava a parede branca com um falso olhar interessado.
-Helena? – ela fingiu não ouvir – Helena? Estás bem?
-Que achas, Vicente? Preciso mesmo de responder? Desde que a nossa filha nasceu passaste talvez quinze minutos neste hospital e mesmo desses quinze minutos se passaste um ou dois a falar comigo já foi muito. Que se passa? Por que andas a fugir? Pensei que quisesses ser pai, Vicente.
Olhei para o chão. Parte de mim queria dar-lhe razão, pedir desculpa e dizer que tudo isso ia mudar. Ela faria o seu olhar triunfante e satisfeito e por alguns dias tudo ia andar bem até eu regressar às mesmas atitudes...Então porquê ser insincero? Nada ia mudar? Por que havia de fazer promessas que sabia de antemão serem impossíveis de cumprir. Os dias passariam e nada se alteraria. Por outro lado, também não podia contrariá-la, não devia. Ela estava frágil e magoada e no fundo, eu sabia, eu sabia bem que ela detinha toda a razão.
-Não faço por querer – não fazia mesmo. – Surgiram uns trabalhos novos e eu quis adiantá-los hoje para amanhã poder estar com a Isabel...e contigo também, claro...
-Trabalhos? Que trabalhos poderás ter tu? Tudo o que fazes é dar aulas...
-Um colega convidou-me para dar uma palestra aos alunos dele sobre uma obra e para depois ir assistir à Conferência que o autor dessa obra vai dar lá na escola. É uma grande responsabilidade, entendes? Ele é professor de História e é o Director de Turma e...
-Chega, Vicente, chega! Estou farta das tuas desculpas. Há sempre qualquer coisa mais importante do que eu na tua vida. É incrível! Será que não consegues reorganizar o teu tempo? Será que és assim tão ocupado? Ou seja o que for passa à minha frente e serve de pretexto para não estares comigo?! Nem agora, Vicente! Nem agora que nasceu a nossa filha e quer queiras quer não vais ter um elo de ligação comigo para sempre...Nem agora te preocupas comigo! Sou assim tão insignificante para ti que qualquer estudo de uma obrazinha ou de um autorzeco qualquer passa à minha frente? Não podias nem por uma hora deixar isso de lado e vir ver-nos hoje?
-Helena, tem calma – aconselhei-a num tom calmo e frio – Não te exaltes. Eu vinha visitar-vos, apenas perdi as horas...Sabes como sou distraído ou já não te recordas? E depois, aquele trabalho é mesmo importante. É uma boa chance de me mostrar como professor e de me afirmar...Estas experiências dão prestígio e...
-Desculpas, só desculpas que já me enojam...É ele, não é?
Fitei-a espantado e intrigado. Não entendia onde ela queria chegar. Nunca a tinha visto assim tão revoltada e juro, já lhe fiz coisas piores. Por exemplo, no último aniversário de casamento, ela convidou-me para ir jantar fora. Nós fomos. Enquanto esperávamos pela comida, fui à casa de banho do centro comercial. Acabei por entrar numa livraria e fiquei por lá duas horas, quando regressei ao restaurante ela tinha ido embora. E se não for ela, essas datas (aniversário de casamento, dia em que nos conhecemos, dia em que começámos a namorar, etc...) passavam-me em branco. Helena estava muito revoltada, nem sabia o que dizia, perdera a postura e a razão. Ela sabia que eu, na generalidade, era quase sempre sincero. Dizia-lhe a verdade por mais que ela doesse. Talvez muitas vezes esse tenha sido o meu erro. Não devia ser tão honesto. Há pessoas assim, que gostam de viver na ilusão, no limiar abstracto da felicidade aparente. No dia em que a pedi em casamento, eu fui bem claro, avisei-a que não a amava, que não ia ser o melhor dos maridos, que não pretendia abdicar de muitas coisas. Mesmo assim, ela aceitou. Não a enganei nunca. Ela sempre soube ao que veio. Eu mantive sempre a mesma postura, a mesma atitude. Ela disse-me para ficar descansado, que eu havia de aprender a amá-la, que não se importava porque também lhe convinha casar e que não queria que eu mudasse os meus hábitos desde que nunca a traísse. Se há coisa que a Helena nunca iria tolerar era uma traição. Isso não me fazia diferença, o meu desinteresse por mulheres não é só para lançar charme, é mesmo real. Helena satisfazia-me todas as necessidades e muito bem até. Se bem que, na verdade, eu nem tenho muitas necessidades para satisfazer, cada dia tenho menos...Deve ser da idade.
4 comentários:
Não sei o que diga.
Não esperava que ele chegasse a tempo ao hospital. E estou muito surpresa por saber que Helena sabia desde o inicio que não era amada. Como pode ela fazer isto a ela mesma?!
De qualquer forma a minha revolta contra ele não cessou. A forma como fala com ela, como trata tudo á sua volta (que diga respeito a Helena claro está) é chocante. E as desculpas esfarrapadas.
Surpreendeu-me este rompante de força e personalidade em Helena, a cólera com que lhe falou. Nem parecia a mesma que parece temê-lo sempre que ele se dirige a ela. Adorei a forma como ela apelidou o Almeida de Andrade e a sua obra de autorzeco e obrazeca, não porque não goste da personagem, mas porque ao fazê-lo, ela realmente atigiu o ponto fraco dele ... a estupida obcessão por aquele livro e seu autor.
Desculpas ... devia ter vergonha em tratar alguém daquela maneira! Honesto? ... será isto uma forma de se desculpar (mais uma vez) por se ter aproveitado de alguém para sair de casa dos pais? Sim porque ele mesmo afirma que estava farto da mãe etc etc.
Uma traição? E casar com uma pessoa amando outra já não será traição suficiente? Eu não consigo ver pior!!!
Quando conta o que fez no jantar de aniversário, enojou-me! Que canalha! Que tipo de pessoa é esta que deixa a mulher á espera num restaurante para ir para uma livraria?
Penso que Helena agiu muitissimo bem deixando o restaurante e nao esperando por ele. Mas na minha opinião ela não fez bem em ter ficado grávida ... não se dá a uma criança o peso de resolver a relação dos pais. E penso que se ela alguma vez lhe disse que ele aprenderia a amá-la, errou ainda muito mais. Ninguém aprende a amar ninguém ... ou se ama ou não se ama. E quando não se ama, não se assumem compromissos.
Muito honestamente espero que ela saia deste casamento, e que encontre uma pessoa que a ame, sim porque ela mais do que ninguem merece isso.
Mais uma excelente parte desta magnífica obra.
Abraço
Kangas
"Acabei por entrar numa livraria e fiquei por lá duas horas..."
LOL
Ah desgraçada!
E agora é esperar pela próxima parte ansiosamente.
Meus deus pessoas como esse vicente n ao deviam existir!
Ele acusa a mãe e a sogra de não terem ficado com a Helena mas e ele ? Onde é que ele esteve quando a Helena precisa dele?
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