Abri a mala de novo e tirei uma caneta e arranquei um pedaço de uma das folhas de cartão que compunham o álbum de fotografias que me tinham oferecido e escrevi “Acha que o seu livro pode ser um farol para as mentes mais desorientadas e à deriva?”. Pelo menos uma questão, já tinha. Guardei tudo na mala e corri para o carro. O tempo urgia, tinha de despachar-me para poder passar pelo hospital ao fim da tarde pelo menos. Ainda queria voltar a ver Isabel, nem que fosse só a dormir. Ela tem de saber que eu sou o pai dela. E ainda tenho de criar coragem para pegar-lhe ao colo.
Cheguei a casa num nervoso miudinho larguei a mala e o casaco no chão e corri para o escritório. Abri as gavetas e procurei todas as folhas soltas com pensamentos e estudos acerca do Laudo Amorem. Tinha de passar tudo a limpo. Envolvi-me no trabalho que tinha de realizar sem falta e pousei o relógio em cima da secretária...As horas, esqueci-as algures num canto da minha mente. Da janela não avistei nem entardecer, nem a chegada mansa e outonal da noite sobre a cidade. O meu mundo estava concentrado, fechado e encerrado. Nele só havia eu. Eu e aquela imensidão de papéis perdidos, de anotações em guardanapos, folhas soltas, até papel higiénico. Nem a foto do casamento com a Helena, assente sobre a secretária, envolta na sua moldura dourada e brilhante me acordou para um universo diferente daquele. O universo do Vicente Vaz, professor, homem casado, com uma filha recém-nascida, sério e com responsabilidades, horários e obrigações...esse universo dissipara-se. Ficara apenas aquela parte de mim que idolatrava o Almeida de Andrade e estava a esforçar-se para impressioná-lo com as suas teses. Tanto sacrifício e ele se calhar nem ia ler todo aquele trabalho, todos aqueles segundos e minutos e horas e dias a pensar no Laudo Amorem. Seria justo? Seria justo que eu pensasse tanto nele e ele pudesse passar por mim sem me ver sequer? Não podia ser! Eu não podia ser insignificante para ele. A nossa ligação...A nossa ligação deve estar escrita nas estrelas, os nossos destinos já se devem ter cruzado em vidas anteriores. Só isto pode justificar a mudança que ele causou na minha vida, o modo explosivo como ele perturbou a quietude inconformada da minha vida. Ele conhecia-me tão bem. Ah, como ele me conhecia bem. Cada traço meu, cada pensamento, cada característica, cada sentimento...Ele escrevera para mim aquele livro. Ele conhecia-me, sim, ele conhecia-me! E todos os meus estudos, ele ia lê-los com atenção, apreciá-los e dar ao editor para o caso de haver algum interesse em publicar um estudo sobre o Laudo Amorem...
A fome despertou-me. Não andava a comer nada bem. Faltava-me a organização de Helena, a cozinhar para mim, a chamar-me para as refeições. Sem ela, a casa perdia o espírito, tornava-se apenas uma caverna, um refúgio do frio e do vento, um sítio para parar e descansar. Eram quase nove horas. Quase nove horas e assim tinha passado um dia inteiro. Não tinha ido ver a Isabelinha. Ela ainda era tão recente na minha vida e já estava a deixá-la ficar mal. Pobre criança! De nada me valem as minhas promessas. No fundo, sei sempre de antemão as que vou cumprir e as que não então para quê prometer coisas que sei que não vou realizar? Tento enganar-me, jogar jogos ridículos na minha mente. O centro da minha vida sou eu. Eu e sou eu. Só penso em mim, no meu bem-estar, na minha sobrevivência efémera de quem espera por algo que não vem. Helena, Isabel, a família e mesmo o trabalho eram meros satélites da minha vida – sempre seriam. Satélites distantes que não me fazem girar mais depressa ou mais devagar, são apenas satélites. O centro serei sempre eu. Eu e a minha existência. Eu e os meus sentimentos. Eu e os meus pensamentos. Os outros que se revoltem contra mim, achem que estou errado...Isso só vai servir para fazer arder mais este fogo que carrego comigo, o fogo da minha alma egoísta. Interesso-me por mim, preocupo-me comigo, amo-me a mim. Sempre estive sozinho no meu mundo afinal. Nunca ninguém conseguiu entrar nele, sem ser...sem ser ela...Ela e o Almeida de Andrade. Mas como ela estava perdida, restava-me o Almeida de Andrade, com quem podia compartilhar a minha vida. Ele entender-me-ia. Ele era um ser só como eu. Habituado a ser posto de lado, daí a sua solidão, daí o seu egocentrismo...Não de propósito, não é por arrogância, é a nossa protecção: se estivermos com nós próprios, nunca estaremos realmente sozinhos. O importante é não nos perdermos de nós, a nós mesmos temos que ser fiéis...Mas a minha filha, a minha Isabel...ela já devia ter entrado no meu mundo...
Ninguém me tinha ligado a chamar por mim. Helena já nem estranha a minha ausência, a minha sogra não deve ter agido para ver até onde eu ia, a minha mãe, com certeza, abandonou o hospital a meio da tarde morrendo de vergonha e desapontamento. Nenhuma delas me interessava, preocupava-me Isabel. Será que ela telefonar-me-ia a chamar por mim se já fosse mais velha? Agarrei no casaco e vesti-o. A minha filha devia estar a desesperar chamando por mim e aposto que todos ignorariam que o seu choro era por minha causa.
3 comentários:
Não há dúvida que este homem mexe com os meus sentimentos, mas hoje foi longe demais!!!
Hoje consegui sentir raiva ... tal é a repulsa que as suas atitudes me causam.
Eu não consigo perceber uma pessoa assim, se ele próprio admite que é um egoista que só pensa nele mesmo, porque assume compromissos e relações com outras pessoas? Gente como ele deveria estar mesmo numa casa vazia, apenas a "cobrir do frio e do vento" como ele mesmo descreve! Ele na verdade não merece melhor que isso ...
Que falta de educação ter rasgado a folha do album de fotografias que os colegas lhe ofereçam com carinho, para anotar perguntas que quer fazer a um escritor misterioso que nem ele mesmo sabe ao certo quem é! ... e pior que isso, o presente era para a sua família, ou seja Isabel e Helena estão também incluídas, como pode ele danificar uma coisa que foi dada também para elas sem sequer dar-lhes o direito de a conhecer na integra? Quem ele julga que é e que direito tem ele de o fazer?
Ridiculo ... este homem é absolutamente desprezivel as vezes!
E já para nem falar da atitude de chegar a casa, enfornar-se no escritório com as anotações de papel higiénico, e mais uma vez se esquecer da filha! Imperdoável! Inacreditável!
Será uma obcessão doentia mais importante que a própria filha ... e claro a mulher, que ele tanto despreza? ... desprezivel!
Se no primeiro capítulo ele se referia a Helena como uma pobre de espírito, porque não gostava do Laudo Amore, que se dirá dele? Uma pessoa egoísta, obcecada e fria como gelo?!
Ele sim é o pobre de espírito, um fraco, que em vez de assumir os seus sentimentos e atitudes, dediciu ir para a frente com um casamento para o qual não tinha o mínimo sentimento e agora faz a pessoa com quem casou viver numa constante miséria ... fraco! Egoista! Mesquinho! Abominável!
Credo ... hoje realmente ele pôs-me ao rubro. Que atitudes tão feias. Que irá pensar a pequena Isabel quando souber o quão o pai se immportava com ela? Ele chega a ter o desplante de se perguntar se a Isabel lhe telefonaria caso fosse mais velha! Muito honestamente se ele fosse meu pai nem lhe queria olhar para a cara!
Ele que ficasse com o seu livro e com o autor misterioso.
Este talvez tenha sido o episódio que mais me revoltou. Esta muito bem conseguido. Ele mexe mesmo com as emoções e é totalmente impossível não ficar revoltado.
Espero pela próxima parte para ver se ainda chegará a tempo ao Hospital e que desculpa esfarrapada dará á mulher e á filha.
Abraço
Kangas
Ele acima de tudo é monstruoso para com a mulher. Que figurinha!
É inaceitavel que ele se preocupe mais com um simples escritor mistério do que da própria familia. Essa sim devia ser a sua razão de viver. Mas o facto de ele ser capaz de dar um livro que siginica demasiado para ele a uma aluna e não ser capaz de se preocupar com a sua filha e com a sua mulher é demais, é um ultraje!
estou a adorar esta história arrebatedora!
PARABENS!
EXCELENTE TRABALHO!
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