Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Capítulo II - Parte 4: Ana Maria

Quando ia no corredor, cruzei-me com a Ana Maria, minha aluna. Ana Maria era uma excelente aluna, com uma expressão escrita e uma fluência fabulosa. No entanto, era muito tímida e muito insegura. As aulas, passava-as na maioria em silêncio. Não levantava o braço, não reclamava, apenas sorria e fazia tudo o que lhe era pedido. Se não fosse tão boa aluna, ainda hoje eu não saberia quem era a Ana Maria Bastos. Ela olhou para mim, sorriu e esboçou um “olá”, baixando de seguida os olhos. Tive vontade de pará-la, de conversar com ela, de perguntar-lhe por que é que temia mostrar-se, de que é que ela tinha medo se tinha tanta garra por dentro, a arder...Ana Maria dava-se bem com duas ou três meninas da turma e com a maioria dos rapazes. Era calada e pouco espontânea e isso não a ajudava a aprofundar relações. Será que ela tinha medo dos compromissos, das relações porque podia sair magoada delas? De qualquer maneira, os treze e catorze anos são idades tão difíceis, sobretudo para as raparigas. Para mim foram tempos muito complicados de constante luta para definir a minha personalidade, as minhas vontades. Foi nessa altura que comecei a traçar sonhos e decidi lutar por eles. Quando tinha catorze anos tinha uma coragem que perdi não sei onde nem porquê. Quando tinha catorze anos, queria descobrir o significado, o propósito da vida...Hoje já não me questiono sobre nada, aceito tudo o que vem...Não sei onde começou este confortável conformismo. Ana Maria, silenciosa e singela, iludia as pessoas. Por fora, ela parecia partilhar do meu conformismo actual mas no fundo, bem no fundo dela, estava bem presente a fúria e a ânsia dos meus catorze.

Voltei-me e por instantes, segui-a. Chamei pelo seu nome. Ela ouviu perfeitamente e ignorou. Retornei a chamar e ela virou-se para mim.

-Professor?

-Ana Maria...Avisa os teus colegas que não vou dar aulas nem hoje nem amanhã, está bem?

-Sim...

-Ana Maria, gostas de ler?

-Gosto. Prefiro escrever mas também gosto muito de ler.

-Claro, uma coisa arrasta a outra... – abri a minha mala e retirei o Laudo Amorem – Já alguma vez leste este livro?

Ela fitou-me atribulada. Não entendia o propósito daquele discurso.

-Não. Já ouvi falar só que nunca li.

As suas frases eram fatalmente curtas e objectivas como um discurso profissional. Falava baixo e nunca me olhava nos olhos. Eu não estava a avaliá-la, era uma conversa meramente ocasional, ela não tinha motivo para agir assim, com tanto medo e nervosismo.

-Toma, lê – ela voltou a olhar-me baralhada. – Vais gostar. Que seja um farol para o teu espírito e que vejas nele a solução para ti – estendi-lhe o livro.

-Professor... – lia-se nos olhos dela a questão que ela omitiu “Porquê?” – Muito obrigada. Eu leio e depois devolvo-lhe. Muito obrigada.

-Não te preocupes com isso, Ana Maria. Agora vai para a aula e até à próxima aula.

Ela partiu sem se despedir e agarrando o livro entre as suas pequenas mãos. Tinha uma estatura delicada, um rosto dócil e os cabelos castanhos finos e compridos que lhe caíam sobre as costas e dançavam enquanto ela se afastava de mim. Dera-lhe para as mãos o Laudo Amorem, o meu Laudo Amorem...Tinha sido uma atitude instintiva. Algo me disse que aquela obra podia ser a resposta que ela tanto procurava e que a oprimia. Havia nela um olhar distante e vago que me recordou Lídia. Lídia esperando pelo seu Miguel sem esperança, sem vontade, quase esperando por esperar. Até que Miguel chegou e Lídia nem soube como acolhê-lo no seu coração. Laudo Amorem tinha tantas respostas para a vida, parecia um manual escolar onde se ensinava a ser feliz, a encontrar-se...Ana Maria parecia estar aflita, parecia não estar a suportar mais as questões que bombardeavam a sua vivência, a inquietude da sua alma já estava a tornar-se demasiado insuportável. Naquele momento, aquele livro podia ajudá-la tanto. Ana Maria é nova, certamente vão escapar-lhe muitos conceitos, muitos pormenores, muitas propriedades literárias mas se tenho uma aluna que creio ser capaz de absorver o Laudo Amorem, essa aluna é a Ana Maria. É a única com densidade psicológica e profundidade sentimental suficientes para entender Lídia e Miguel. Laudo Amorem podia e ia ajudá-la.

1 comentários:

Kangas disse...

Mais um excelente momento de leitura. Desta vez mais calmo e sem grandes emoções ... mas intrigante.

Porque razão aquele homem se sente tão preocupado com a razão porque a aluna se sente tão amedrontada ao falar com ele e nem repara que a sua própria mulher tem exactamente a mesma reacção?!

Como pode ele estar tão preocupado em salvar a aluna da sua timidez (ou até da sua batalha interior de rapariga de 14 anos) e não se preocupar em salvar a própria mulher, a quem ele jurou amor eterno, da sua extrema infelicidade?!

Não entendo este homem ... não entendo o que o faz ter atitudes tão extremas.

Já estou a prever o que irá fazer asseguir e a perguntar-me se cumprirá ou não a promessa que fez a Helena, uma vez que sabe agora que o misterioso escritor está prestes a dar uma palestra na sua escola!

Estou também curiosa por saber que opinião terá a jovem Ana Maria de "Laudo Amore". Vicente parece estar tão convencido de que aquele livro irá ajudar a sua jovem aluna a obter respostas para a vida (como se todas as pessoas tivessem de ter as mesmas respostas que ele), que estou curiosa por saber se ela acabará por encontrá-las ou se, pelo contrário, nem sequer gostará da leitura!

Enfim ... mais uma personagem a juntar ao enredo, uma personagem que se prevê também ser de grande densidade.

Aguardo ansiosamente a continuação ... esta obra é viciante! Não consigo deixar de a ler. Muito obrigado por me proporcionares tão rica leitura.

Abraço

Kangas