-Desculpa, Maria do Carmo mas vou contar ao Vicente. Ele é professor desta casa, da área das línguas, é um homem culto e além disso, é um dos maiores admiradores do trabalho do Almeida de Andrade. Eu estava, inclusive, a pensar convidá-lo para ir dar uma espécie de aula sobre o Laudo Amorem à turma, para eles se inteirarem bem da pessoa e da obra que vão conhecer. O Vicente vai ser de extrema utilidade, não há razão para não contar-lhe.
Fiquei boquiaberto. Conhecê-lo?! O Almeida de Andrade vai aparecer, vai revelar-se? Meu Deus! Parece inacreditável, pensei que ia morrer sem poder conhecer esse grande homem, a minha alma-gémea. A única pessoa que até hoje parece ter conhecido os meandros da minha dor, dos meus sentimentos.
-Está bem, Carlos. Faz como entenderes. Mas, Vicente, já sabes que não podes contar a ninguém. Ainda nem sequer está nada confirmado.
-Sim, sim – a Maria do Carmo abandonou o sofá e deixou-me a sós com o Carlos. Agora poderia libertar toda a minha curiosidade e ânsia – O que é que se passa? Conta-me! Já sabes quem é o Almeida de Andrade? Que história é essa da tua turma ir conhecê-lo?
-Tem calma, tem calma... – aconselhou-me ele.
O Carlos era o Director de Turma do décimo primeiro H. Como sempre, somos obrigados a realizar um Projecto com as nossas turmas. O tema do projecto era “Novos Horizontes na Literatura Portuguesa” e a ideia era estimular não só a leitura como o próprio espírito de criação. Decidiram, então, que um bom método de despertar para a leitura, seria divulgarem alguns escritores contemporâneos. Carlos, aproveitando-se da oportunidade, idealizou trazer Almeida de Andrade à nossa escola para uma conferência de imprensa. Não contou nada a ninguém e fez tudo à revelia, tão pouco confiante estava no sucesso da sua iniciativa. Escreveu uma carta a convidar o Almeida de Andrade endereçada à editora e duas semanas depois, recebeu uma resposta pessoal dele mesmo. Ele mostrou-me a carta, escrita a computador e assinada à mão com uma caneta preta.
“Caro Professor Carlos Figueiredo:
Foi grande carinho que acolhi o seu convite. A escola onde ensina, foi a escola que frequentei nos meus não tão longínquos tempos de estudante. Por outro lado, a ideia de tentar cativar os jovens não só para a leitura mas também para a escrita agradou-me bastante.
É com grande orgulho que aceito participar no seu projecto. Pode contar comigo quando precisar mas peço-lhe que contacte o meu editor e que com ele escolha a data mas adequada a ambos.
Os meus sinceros cumprimentos,
Almeida de Andrade.”
Minha alma estava parva! O Almeida de Andrade tinha estudado ali, como eu! Eu devia conhecê-lo nem que fosse de vista. Tinha mais ou menos a minha idade, estudou ali e na Faculdade de Letras, devia ser da minha cidade. Eu já devo ter cruzado o meu caminho com o dele aí algures. No entanto, isso agora não interessava mais porque eu ia, de facto, conhecer o Almeida de Andrade. Ia poder apertar-lhe a mão, cumprimentá-lo, louvá-lo pela sua obra magnífica, pela sua sensibilidade, o seu lirismo magnânimo e avassalador. E por que não, abraçá-lo num gesto puramente fraterno e grato pelos sentimentos que reanimara em mim, pelos momentos bons que passei a lê-lo? Devia tanto a este homem, tanto. Tinha tanto que agradecer-lhe. Se agora tenho forças para criar a Isabel, é graças ao Laudo Amorem, se não fosse por ele...Bem... não sei onde estaria, talvez já não neste mundo. E depois, tinha tanto para dizer-lhe, tantas questões para fazer-lhe...algumas talvez demasiado pessoais. Costumam dizer que os artistas detestam explicar as suas obras, dizem que quando as fazem, entregam-nas ao mundo, deixam de pertencer-lhes e eles passam a poder vê-las apenas como meros espectadores ou leitores. Não me parecia que Almeida de Andrade fugisse à excepção. Alguém que nem queria revelar a cara muito menos quereria revelar o seu íntimo. Ah! Mal podia esperar por conhecê-lo, estou certo que todo o meu conhecimento aprofundado sobre a sua obra irá espantá-lo! Quem sabe não me torno seu amigo, assim poderia ter acesso a material que ele nunca lançou...Ver o original do Laudo Amorem, meu Deus, isso seria maravilhoso! Se calhar, já estou a ir longe demais...Se bem me conheço, quando tiver aquela oportunidade única de falar com ele em toda a minha vida, só vou dizer coisas banais, incapazes de cativarem uma alma em constante ebulição como a do Almeida de Andrade. Fui sempre assim, sempre fraquejei nos momentos mais importantes, sempre deixei escapar as oportunidades mais preciosas...
-E já está confirmado? – Perguntei-lhe.
-Ainda não. Estamos a estudar datas mas possivelmente será daqui a uma semana ou duas. É que ele não está cá, está no estrangeiro e só pode vir a partir da próxima semana.
-Não é cedo demais? Afinal, esta espécie de conferência devia ser o culminar do projecto...
Era cedo demais para mim. Como podia preparar-me para conhecê-lo em uma semana. A Isabel estava a precisar muito de mim e eu tinha-me prometido que ia ajudar em tudo o que pudesse. Ia precisar tanto de me enfurnar no escritório sozinho, com a porta fechada e em silêncio, talvez até escrever o que pretendo dizer, reler o Laudo Amorem e todos os ensaios e comentários que escrevi. Tinha de fazer uma preparação exaustiva. Já para não falar que tenho as aulas e uma pilha de testes para corrigir...Onde é que vou arranjar tempo para tudo? Todo o tempo do mundo nem seria suficiente para me preparar para conhecer o Almeida de Andrade, quanto mais uma ou duas míseras semanas. Estava a desesperar. Queria adiar esse momento, pois ele tinha de sair perfeito, não podia ser concebido à pressa, sobre o joelho. Tinha de ser um momento bem reflectido...
-Pelo contrário, esta conferência pretende abrir o apetite dos miúdos, provocar as suas mentes. Os jovens gostam de se sentir importantes, e normalmente empenham-se quando lhes damos um voto de confiança. Estou certo que o Almeida de Andrade vai saber convidá-los a um bom trabalho – eu mal o ouvia de tão perdido que estava nos meus pensamentos... – Achas que na segunda-feira podes ir à minha aula falar com eles? Já consultei o teu horário, é quando tens o furo entre a aula da uma e a das três, podes ir? Vicente, estás a ouvir-me?
-Sim, sim. Sim, claro. Segunda, às duas. Com certeza, podes contar comigo.
-Muito obrigado. Bem, eu vou para a minha aula. E tu vê se vais para casa, não precisas de trabalhar hoje. Vai cuidar da tua esposa e da tua filha que bem precisam.
E não precisava mesmo de trabalhar. Fui à escola apenas para me encontrar com o Carlos e descobrir o tal mistério. Agora que já o conhecia, podia ir embora. Ir para casa e meter-me no escritório enquanto tinha sossego e adiantar o máximo de trabalho. Logo, logo, Isabel ia estar em casa e seguir-se-ão noites em claro a cuidar dela, tinha de aproveitar o tempo. Levantei-me e fui-me embora da sala dos Professores.
2 comentários:
Não sei o que diga! Confesso que esta conferência de imprensa foi uma grande surpresa para mim. Estava á espera de algo diferente, não sei bem o quê, uma revelação da identidade ... se bem que tinha a noção que esta não seria feita tão cedo ... ou até talvez a notícia de uma nova obra. Muito bem, este efeito surpresa foi brilhante.
Quanto ao Vicente ... que mais haverá a dizer sobre aquele homem. E que obcessão tem ele por aquele livro, obcessão tal que até atribui a este a capacidade de criar a filha e a própria vida!
Mais uma vez surpreende-me como uma pessoa capaz de tamanha sensibilidade e profundidade de sentimentos ser tão fria e até cruel para quem nutre por ele o tal amor que ele tanto defende. Nem parece tratar-se da mesma pessoa ... ou se calhar não se trata mesmo da mesma pessoa e o Vicente Vaz que lê o "Laudo Amore" e venera Almeida de Andrade não é o mesmo Vicente com quem a Helena casara ... certamente não o será de certeza.
Este homem tem uma personalidade tal que é dificil definir um sentimento por ele. E esta característica obcessiva em relação aquele livro e áquele escritor, que ele nem sabe bem quem é, uma vez que este usa um pseudonimo, é algo que lhe confere uma diferença no que talvez seria de esperar de alguém com o seu estatuto e idade.
Os pensamentos e dispersão dele quando fica a saber da possivel ida de Almeida de Andrade á escola parecia a atitude de um adolescente quando sabe que o seu grupo musical favorito vai dar um concerto na sua cidade!
Numa coisa concordo plenamente com ele ... "fraqueja sempre nos momentos mais importantes"... eu nem sei bem se fraquejar será a palavra adequada, mas que sem dúvida ele "fraquejou", ou melhor, falhou quando decidiu levar por diante aquele casamento com Helena, quando ele sabia desde o inicio que não a amava!
Estou ansiosa agora para ver como ele vai reagir á ida de Almeida de Andrade á sua escola (se é que este acabará mesmo por ir ...) e como irá conciliar o tal estudo intensivo e preparação massiva para o dito encontro com a promessa que fez a Helena em ajudá-la a tratar de Isabel!
Parece-me (se bem conheço os homens) que Helena terá de suportar mais uma desilusão. Contudo sinto também que para Vicente o tão esperado encontro lhe vai sair "gato por lebre!".
Fico a aguardar...
Abraço
Kangas
Estas coincidências entre o Vicente e o autor anónimo intrigam-me. Faz-me pensar que o tal passado do Vicente, que ainda não foi revelado, está relacionado com o próprio livro e quem sabe com a própria identidade secreta do autor.
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