Helena consentiu amedrontada. Não parecia ter acreditado muito nas minhas palavras. Eu não queria que ela passasse os dias em casa a tratar da casa e da minha filha. Ela precisava de trabalhar, de sair, de ter contacto com as pessoas. A Helena não fazia, de modo algum, o tipo “caseiro”. Até a habituar-se a passar os sábados à noite em casa depois que casámos foi um grande suplício. Eu dizia-lhe para ela ir sair com as amigas, ir ao cinema, ir ao centro comercial mas ela dizia que só ia comigo e eu jamais fui. Passaram-se alguns meses e ela habituou-se a ficar em casa, infelizmente. Digo “infelizmente” porque se ela fosse sair, eu podia ficar em casa descansado, mergulhado na paz e no silêncio de um sábado à noite sereno e calmo, sem a sua voz estridente sempre a perguntar-me se estou bem, se quero beber um chá, se me apetece uma fatia de bolo, se quero ir ver um filme que está a dar na televisão. Hoje em dia, Helena já nem me aborrece com essas coisas. Ela sabe que, a partir do momento em que me sento na poltrona do escritório, aquele é o meu mundo e é escusado ela tentar entrar lá.
Fui até à janela do quarto. Sentia-a seguir os meus passos com os olhos, tentando perfurar os meus pensamentos. Ela sabia que não conseguia falar comigo. Eu tinha construído uma barreira de ferro entre nós para que pudéssemos viver juntos em paz, com o mínimo de discussões possíveis. Da janela, vi a manhã, o sol brilhando entre as nuvens cinzentas prometendo chuva a qualquer instante. Estava frio lá fora e eu nem sequer tinha trazido um sobretudo, muito menos um guarda-chuva. Olhei o meu carro no estacionamento e depois consultei o relógio. Voltei para perto do berço e fiz de novo uma festa sobre a manta que cobria Isabel. Abaixei-me e tirei do saco, as peças de roupa que Helena me tinha pedido.
-Estão aqui as coisas que pediste... – disse.
-Obrigada, – respondeu.
-Quando é que voltas para casa?
-Em princípio saio amanhã de manhã. Podia sair hoje ao fim da tarde mas pedi para sair amanhã de manhã...
-Eu vai sair, vou passar pela escola. Volto à hora do almoço.
-Vicente...Voltas mesmo?
-Não te disse já que sim? – Olhei uma última vez para Isabel e disse: - Adeus, filhota, até logo.
Quando saí do quarto lá vieram as duas mães ter comigo e pedir-me satisfações: para onde ia, porquê, quando voltava...Começava a ansiar para que Isabel fosse para casa para não ter mais que aturar aquela gente a meter-se na minha vida e a tentar controlar-me a toda a hora. Parecia que tinham medo que eu fosse fugir. Eu ia lá abandonar a minha filha...Sinceramente! Consegui esquivar-me à maioria das perguntas ainda que elas ainda me tenham seguido até ao carro. Finalmente, entrei e já não conseguia mais ouvi-las. Liguei o motor e fui embora dali. Era sempre a mesma cantiga: precisava de tratar melhor a Helena, ser menos duro com ela, ela não merecia, era boa rapariga, agora tinha uma filha, tinha de pensar só nela...Como se eu não soubesse bem tudo aquilo. Já tenho vinte e seis anos, sou novo, mas já não sou nenhuma criança e já era mais do que altura de me deixarem conduzir a minha vida sozinho. Eu responsabilizo-me pelos meus erros e pelos meus actos.
O parque de estacionamento da escola já estava cheio. Tive de deixar o carro do outro lado da rua. Não havia uma passadeira ali perto, agora entendia o risco que os miúdos corriam sempre que iam para a escola. Não podia deixar Isabel correr riscos semelhantes. Estava quase a tocar para a saída no momento em que entrei para a sala dos professores. Num ápice, tornei-me o centro das atenções. Todos vieram felicitar-me e perguntar pela minha filha. Os professores do meu grupo até se juntaram e compraram um álbum de fotografias para me oferecer. Foi um gesto simpático que prontamente agradeci. Porém, se pudesse fugir a todos aqueles cumprimentos e perguntas tinha fugido. O que eu queria mesmo era encontrar o Carlos. Estava ansioso por saber as novidades. Aproximei-me da professora de Português de uma das minhas turmas e perguntei-lhe se tinha visto o Carlos Figueiredo. Ela respondeu que o tinha visto de manhã, na primeira hora. Ao menos ele tinha vindo dar aulas, era uma questão de tempo até ele chegar e esclarecer-me tudo. Tocou para o intervalo. Sentei-me no sofá a beber uma bica, com os olhos fixos na porta. Professores entravam, outros saíam e do Carlos, nada. Estava a desesperar. Que estaria ele a fazer? Estaria a dar teste? Aquela espera estava a tornar-se insuportável. A tal professora de Português, a Maria do Carmo Rocha, veio sentar-se ao pé de mim.
-Pareces nervoso, Vicente...Algum problema ou ainda é o choque de ser pai que te deixa nesse estado?
-Não, estou nervoso porque precisava urgentemente de falar com o Carlos e ele não aparece. Tenho de apanhá-lo antes que ele entre para outra aula... – de repente – ocorreu-me perguntar-lhe – Sabes alguma novidade do Almeida de Andrade?
-Do Almeida de Andrade? Não, por enquanto, não... – ela fez-me um olhar malicioso que me deixou desorientado. Ela parecia saber mais do que estava a revelar – Mas o Carlos vai contar-te alguma coisa sobre o Almeida de Andrade? É que ele não devia, pelo menos, por enquanto...
-Vai...Quer dizer, não vai. Ele disse que sabe de uma coisa relacionada com o Almeida de Andrade mas que não podia contar e eu queria ver se descobria o que é... – menti. Tinha que disfarçar, não podia prejudicar o Carlos se ele ia partilhar comigo alguma espécie de segredo.
Por fim, o Carlos chegou, tinha de disfarçar o meu entusiasmo. Pelo que tinha entendido, ele não havia de poder contar-me o que sabia ali, à frente de todos. Em vez de me levantar e correr para ele, esperei que ele me visse e viesse ter comigo.
-Então como vai o Papá? – perguntou com um sorriso e estendendo-me a mão.
-Vou bem, muito obrigado.
-E a menina e a mãe? Estão bem? Como se chama a princesinha?
-Estão bem sim, obrigado. Chama-se Isabel.
-Oh Carlos – interrompeu Maria do Carmo - tu sabes que não podemos contar nada daquele segredo a ninguém, pois não?
Carlos fitou-me com um olhar fulminante e destrutivo...Como se eu tivesse culpa...Ele não me tinha avisado que era “informação confidencial”, segredo de justiça ou qualquer coisa do género. E a cada reacção estranha eu só ficava mais intrigado. Que seria que eles sabiam e não podiam revelar? Será que não me podiam contar? Eu não partilhava o segredo com mais ninguém, guardá-lo-ia só para mim.
1 comentários:
Este homem é sem dúvida nenhuma um poço de contradições. É (mais ou menos) educado para quem não devia e um perfeito idiota para quem deveria tratar como amor.
Não entendo a forma como se refere a Helena. Porque razão se casou com ela e quis mater tal compromisso se parede ter-lhe tanta indiferença e por vezes até repugna. A forma como ele descreve os sábados do casal são absolutamente chocantes, que frieza, que crueldade. Mais valia ter desmanchado um noivado do que fazer a pobre Helena viver em tal agonia.
E a mãe e a sogra?! Que falta de educação, ou como se custuma dizer ... que falta de chá! Honestamente, e tal como disse ontem eu teria sido mal educada. Ter-lhes-ia dito para se meterem na vida delas e me deixarem em paz!
Mais uma vez uma referência cultural muito bem conseguida. Aquele hábito e presunção de que ser mãe (ou pai) singnifica ser dono dos filhos, mandar na vida destes e até controlar todo e qualquer passo que estes dêem! há exepções claro!
Mas uma outra coisa que eu não entendo e que me causa grande choque é a forma amedrontada de Helena. De que terá ela medo?! ... ás vezes ponho-me a falar sozinha com a minha leitura dizendo-lhe porque razão ela teme tanto um homem abusador, que a trata com um desprezo absoluto e uma frieza ainda maior. Não sei porque insiste ela em ficar com aquele homem. Enfim, o típico caso de violência doméstica, e que desta vez nem é física nem causada pelo alcool. Um assunto cada vez mais actual nos dias que correm ...
Para terminar ... o viciante suspence com que nos premeias a cada capítulo. O tal segredo, o tal escritor ... que saberá Carlos assim de tão importante?! E porque razão é um assunto tão secreto que nenhum dos outros professores pode revelar.
Excelente mais uma vez ... vais-nos mantendo presos ao enredo, ansiando por saber o que vem asseguir.
Mais uma vez muitos parabéns.
Abraço
Kangas
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