Acordei com o som irritante do telefone de casa. Detestava acordar cedo e muito menos com o som de alarmes. Gostava de acordar por mim próprio. O meu horário era predominantemente à tarde. De manhã sentia-me demasiado cansado e ensonado para ter rendimento e poder cativar aqueles miúdos para a língua francesa. O mais cedo que acordava era às dez da manhã quando tinha aula ao meio-dia. Às vezes tinha de acordar cedo para ir a reuniões mas nesses dias, quase sempre pedia à Helena que me acordasse. Olhei para o relógio: oito da manhã. Tinha dormido bastante. As costas estavam doridas da noite no sofá. Não precisava de atender o telefone para adivinhar quem seria, só podia ser a minha sogra.
-Estou? Vicente? O que é que se passou contigo? Estávamos preocupados! Não vieste cá trazer a camisa de noite da Helena, nem voltar a ver a tua filha sequer! A Helena ficou preocupada pois nós ligávamos, ligávamos e ninguém atendia nem o telefone, nem o telemóvel. Que se passou, Vicente? Graças a Deus que a Helena lembrou-se de ligar para a Dona Elvira do terceiro andar e ela disse que te viu chegar a casa e que o teu carro estava no parque, senão já estávamos aqui em cuidados e...
-Eu estou bem, Francisca, não se preocupem...Peço desculpa mas deixei-me dormir e não ouvi o telefone tocar até agora. Não era preciso preocuparem-se...A Isabelinha está bem?
-Está, está...Ela, pobrezita, é pequenina nem se apercebeu de nada. Não marques presença agora que depois ela não te reconhecerá mais...A Helena é que ficou muito nervosa, os médicos deram-lhe umas coisas para ela relaxar...
-A Helena já devia saber que eu sou despistado, é ridículo ela apoquentar-se por minha causa...
-Vicente, filho, ela preocupa-se contigo, é tua esposa e ama-te muito.
-Francisca, fique descansada. Eu vou tomar um banho, tomar o pequeno-almoço e vou já para aí, está bem? Até já.
Fui até à cozinha e liguei a máquina de café. Tirei um café bem forte e fui vestir-me. Sentia-me zonzo. Era horrível acordar com o som do telefone e os gritos da minha sogra às oito da manhã...Sinceramente, seria impossível conceber pior amanhecer. Voltei ao escritório e liguei o telemóvel, entre tantas mensagens de voz da minha sogra tinha uma do Carlos, um colega meu da escola. Estranhei o Carlos ligar-me tão tarde, a mensagem tinha sido deixada às onze e meia. Calculei que quisesse felicitar-me pelo nascimento da minha filha, a esta hora, todos já deviam saber. A mensagem era, no entanto, bem diferente do esperado: “Vicente, liga-me com urgência, tenho uma novidade fantástica para te contar...Está relacionado com o Almeida de Andrade!”. O Carlos era outro “fã” do Laudo Amorem, era professor de História mas adorava Literatura. Era dos poucos professores inteligentes e cultos daquela escola. A grande maioria dos professores, sobretudo os de línguas eram uns frustrados que nem sabia as matérias que ensinavam e muito menos sabia ensinar. Não é que eu seja um professor exemplar, mas pelo menos, estou ali porque quero e porque gosto. Tenho paixão pelas línguas e pelas literaturas e sei bem o que ensino. As crianças, geralmente, só se queixam de mim quando faço uns testes mais difíceis. A verdade é que é preciso começar logo a separar o trigo do joio antes de eles entrarem nas Faculdades e tornarem-se frustrados...como os meu colegas de profissão lá da escola...
Que teria Carlos para me dizer de tão importante e urgente sobre o Almeida de Andrade? Teria lançado um novo livro? Teria revelado a sua identidade? Não aguentei mais a curiosidade e liguei-lhe. Do outro lado da linha, ninguém atendia...Já passava das oito e meia, o Carlos já devia estar a narrar os triunfos da Revolução de Outubro...Teria de aguardar. Peguei nas chaves e saí em direcção ao hospital.
Quando cheguei lá, tive de escapar-me estrategicamente ao sermão da minha sogra e pior, ao sermão da minha mãe que também estava lá. Ambas formavam um coro e entoavam uma cantada cujo refrão era qualquer coisa como: “Agora tens uma filha, não podes ser tão irresponsável. Tens de deixar de pensar só em ti e no teu trabalho, a tua prioridade agora é a tua filha”. Engraçado, elas pareciam ter medo de dizer o nome dela, sobretudo a minha mãe. Diziam sempre “ a tua filha”, “a nossa neta”, “a menina”, “a bebé”...
Entrei de rompante no quarto de Helena. Ela já estava acordada, ao contrário de Isabel.
-Vicente! Assustaste-me, pensei que tinha acontecido alguma coisa.
-Desculpa, Lena. Adormeci...São coisas que acontecem, não é preciso crucificarem-me por isso. Já bastou o sermão da tua e da minha mãe!
Ela não disse nada, apenas condenou-me com o olhar. Ela já nem se revoltava contra mim, podia fazer alguma reclamação, algum comentário mas sempre muito a medo, sempre com um tom calmo e carinhoso. Isso irritava-me. Nunca lhe fiz nada para ela ter medo de mim. Ignorei a situação e aproximei-me do berço. Isabel continuava serena e adormecida, tal como a tinha deixado. Embalei suavemente o berço e aconcheguei as mantas ao seu corpo quente e pequenino. O seu rosto já tinha perdido a vermelhidão de ontem e as rugas começavam a desaparecer. Estava ansioso por ver aqueles olhinhos bem abertos, perceber a sua cor e senti-los a olharem para mim e verem-me. Tive uma vontade enorme de acordá-la, de pegá-la ao colo, de sorrir para ela e vê-la sorrir para mim. Não podia, devia deixá-la descansar. Ela tem de aproveitar enquanto pode, quando começar a correr de casa para o infantário, nunca mais ela vai dormir com esta serenidade.
-Vicente...Vais ajudar-me a tratar dela, não vais?
-Vou...claro...Que pergunta mais estúpida!
-É que...Bem...Vendo-a aí, a dormir, eu estava a pensar...Eu não sei é se seria bom...Mas se tu não me ajudares acho que não há outra alternativa e eu não sei se vais mesmo ajudar-me...É que se não me ajudares...
-Helena: desembucha! – arrependi-me de ter gritado. Isabel podia ter acordado.
-Eu estava a pensar deixar de trabalhar para ficar a cuidar dela.
-O quê? Tu? A sério? – estava espantado. Logo a Helena, que sempre foi daquelas feministas irritantes que não queriam viver à custa de um homem...Perguntava-me se tinha entrado no quarto errado – Ouve, não precisas de fazer isso. Eu ajudo-te. Vais ver que tudo se vai resolver. Tantos casais trabalham e cuidam dos filhos. Não te preocupes com isso...
2 comentários:
Não há dúvida que este homem me cria emoções extremas! Hoje conseguiu por-me do lado dele. Acordar ás 8 da manhã já é mau, com um telefone então é o que eu diria do mais irritante que possa haver ... mas há ainda pior que isso ... atender os telefone e ainda ter de ouvir os gritos da sogra! Eu acho que no lugar dele tinha sido um pouco menos educada e desligava o telefone!
Mas mais uma vez, o Sr. Vicente causa-me todo o tipo de emoções e sempre extremas e opostas. Se por um lado até entendo que ele tenha adormecido, pois estaria cansado e adormeceu, não tendo por isso culpa em não ouvir o telefone; por outro lado acho inaceitável que ele se tenha esquecido de ir visitar a filha recém nascida, logo no seu primeiro dia de vida. Ele puxa imenso pelos meus sentimentos ...
Uma coisa que me causou um forte sentimento de repugna e indignação, foi que a única que, na minha opinião, teria direito de lhe ter dito alguma coisa pela sua atitude, foi a única que preferiu o silêncio, ou seja a sua esposa Helena. Não que parece que nem a mãe, nem a sogra têm quaisquer direitos de lhe dizer seja o que for e muito menos fazerem juízos de valor (como chamá-lo de irresponsável. Mas claro é apenas a minha opinião.
Mas é precisamente esta mistura, por assim dizr, de sentimentos que as personagens me causam que eu acho tão interessante. Este não é aquele tipo de leitura linear em depois de se ler os 3 primeiros parágrafos já se consegue prever o final da história. Em que as personagens são tão lineares que se adormece a ler. Sem dúvida este é o tipo de leitura que jamais fará dormir, pois causa emoção, parece que nos apetece responder as falas das personagens. hehehe
Outra coisa que gostei muito nesta parte (apesar de ser algo que eu pessoalmente detesto hehe) foi a referência cultural representada pela vizinha do terceiro andar ... aquela que sabe sempre quem entra e sai do prédio e que se perguntarmos ás tantas até nos diz o que as pessoas fazem em casa! ... uma "personagem" tão típicamente portuguesa. Muito bem conseguido. Os diálogos ... "estavamos preocupados ... não dizias nada ..." tão característicos da cultura daquele país.
Mais uma vez parabéns. Cá fico á espera de mais ... confesso que estou agora com o pensamento naquela mensagem do colega! ui o que virá por aí?!
Abraços
Kangas
Agora a kangas deixou-me a rir à gargalhada eheheheh
"daquele país"
LOL
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