Qualquer dia ainda tenho algum acidente de carro...Perco-me nos meus próprios pensamentos de tal forma que a estrada desaparece e às tantas já nem sei para onde vou. Queria ir para casa, acabei por fazer o caminho para a escola. Não posso distrair-me quando estiver a cuidar de Isabel.
Quando entrei em casa, foi estranho. Nem sei explicar porquê...A primeira coisa que fiz foi dirigir-me ao futuro quarto da minha filha. Todo pintado de amarelo suave, o berço de madeira ao centro. A cómoda bem fechada cheia de roupas e mantinhas que rapidamente se revelarão poucas. A cadeira de balouço que eu fiz questão de comprar apesar da relutância de Helena...Ali pretendia passar muitas noites a vigiar a minha filha. Tenho tantos planos para ela...Ir passear com ela, dar-lhe banho, ensiná-la a andar, a falar, cuidar dela, dar-lhe de comer, vê-la sorrir, brincar com ela...Por um lado, estou ansioso que ela cresça, para poder levá-la a museus, ensiná-la a ler, mostrar-lhe tantas coisas. Mas por outro, quero que ela cresça devagar, para eu poder aproveitar cada segundo e para que ela não se aperceba da crueldade e miséria que existe neste planeta. Quem me dera tê-la trazido para um mundo melhor...Saí do quarto de Isabel e fechei a porta com cuidado.
Entrei no meu quarto, a cama com a colcha castanha ainda estava desfeita...Helena não a tinha feito. Provavelmente, custava-lhe baixar-se. Ela era demasiado arrumada para sair de casa sem fazer a cama, a não ser num caso excepcional. Tive pena daquele quarto...Tão diferente do de Isabel que transbordava vida e força. O nosso quarto tinha as paredes cor de amêndoa, a cama baixa ao centro com duas mesas-de-cabeceira de cada lado, uma cómoda com um espelho e dois tapetes de Arraiolos em tons de azul. Era um quarto pequeno e vazio, desconfortável e frio. As paredes eram nuas e nada brilhavam com a parca iluminação. Quis colocar lá dois quadros, reproduções de Monet oferecidas por um amigo meu. Helena recusou. Disse que detestava o Impressionismo, que aquilo não era pintar, era esborratar. Sugeri que escolhesse ela uns quadros para cobrir as paredes e ela respondeu que não gostava de quadros, apenas retratos ou fotografias. Consenti que ela colocasse lá o que quisesse, porém ela confessou-me que fazia-lhe impressão imagens de pessoas no quarto, sentia-se observada em momentos em que só queria gozar da sua intimidade. Não insisti mais. Até hoje as paredes continuam despidas, ausentes de sentimento. Talvez um dia destes ainda coloque lá uma tapeçaria...De certeza que Helena nem vai notar. Para minha sorte, quase nunca frequento aquele quarto, apenas quando vou dormir e quando acordo, se bem que por muitas noites adormeci no sofá do escritório. Só entrei no quarto para ir buscar umas roupas da Helena. Abri a porta do roupeiro e procurei com atenção uma camisa de noite de algodão cor-de-rosa. Os meus olhos percorreram todas as roupas penduradas num cabide. O cheiro do perfume dela saltava e mergulhava sobre o meu rosto. Espirrei. Não é que não goste do aroma, Helena tem um excelente gosto para perfumes mas sou extremamente sensível ao álcool. Nunca tinha reparado na constância das cores que ela vestia: cinzento, preto, branco, vermelho, castanho...Saias, calças, camisolas, casacos...Peças com classe que ela levava horas a escolher nos centros comerciais no final do mês. Os meus olhos tropeçaram sobre uma saia preta, a mais curta que ela tem, acho eu. Observei a cintura estreita e pensei na infelicidade de Helena se nunca mais recuperar a silhueta esbelta. Lembrei-me de abrir a gaveta e finalmente, encontrei a roupa de noite, vasculhei e lá encontrei a camisa de noite de algodão cor-de-rosa. Coloquei dentro de um saco e abandonei o quarto gelado.
Aquele silêncio de início de noite naquela casa atingiu-me e deixou-me melancólico. Uma sensação de solidão abateu-se sobre mim. Sentei-me na poltrona do escritório e lancei-me aos meus pensamentos. Há quatro anos que a minha vida havia sido invadida por um vazio desconfortável. No fundo, sentia-me dentro de mim como me sentia no meu quarto. Isabel tinha chegado, por fim, ela deveria completar o espaço vazio da minha vida, ela deveria fazer-me sentir melhor acerca do meu destino, ela deveria mostrar-me que tudo o que fiz no passado, todos os erros, todo o sofrimento, valeram a pena para poder conhecê-la, ser invadido pela força da sua presença. Helena não queria ter ficado grávida, foi um acidente...Ela achava que não era a altura certa e dado nós ainda sermos novos, podíamos esperar mais uns tempos para termos filhos. Eu também não queria ser pai, nem queria que Helena ficasse grávida. Tanto eu como ela ficámos chocados com a notícia e equacionamos mesmo a hipótese do aborto mas acabámos por concordar em ficar com a criança. Helena pensava que era uma boa oportunidade para melhorarmos a nossa relação e tentarmos reconciliar-nos. Eu acomodei-me com a ideia de finalmente ter uma âncora para este barco à deriva. Isabel foi crescendo na minha imaginação, no meu modo de estar, como uma força e ânsia de viver perdida há dois pares de anos. Isabel (e tinha de ser Isabel) proteger-me-ia de novos sofrimentos, ausentaria de mim esta angústia permanente por não ter o que mais queria. Isabel trar-me-ia de novo o conforto de uma vida saudável e constante. Isabel trar-me-ia a alegria...A minha filha, a quem eu tinha dado vida, dar-me-ia vida também.
Tinha fome, desde o final da tarde que o meu estômago não conhecia alimento. Tinha bebido um café de máquina no hospital. Sabia que devia levantar-me da poltrona e ir fazer qualquer coisa para comer. Talvez houvesse algum resto de comida no frigorífico, alguma pizza no congelador, uma fatia de pão já me chegava...Porém, o meu corpo recusava-se a erguer-se da poltrona. Queria ficar ali e não me levantar mais. Comecei a chorar...Estava sozinho podia dar largas ao meu pranto como tantas vezes desejei. Chorei e chorei. Chorei de alegria, era pai. Chorei de tristeza porque, pensando melhor, estava agora ancorado a um porto para sempre mas o meu porto de destino estava bem longe. Ao menos, enquanto andava à deriva, tinha a esperança que o vento ou as correntes me encaminhassem para o meu destino. Agora, tinha aniquilado a esperança, tinha desistido, tinha abandonado o jogo e confirmado a minha derrota. Mesmo que quisesse, seria impossível voltar a viver como queria. Ela estava perdida, perdida, perdida...Essa palavra...Essa palavra assolava-me a toda a hora, a todo o momento. Não sabia até hoje porque a tinha perdido e a partir da hora em que Isabel nasceu, comprometi-me a desistir de tentar encontrar essa resposta. E pensei que isso aconteceria naturalmente, não seria um acto voluntário. A minha mente estaria tão ocupada com a minha filha que deixaria de pensar nela. Agora apercebi-me que nada disso vai acontecer. Isabel fez-me, faz-me e far-me-á muito feliz mas não vai apagar o meu passado, não vai apagar as minhas angústias, não vai apagar aquela perda que, agora acredito, vai permanecer comigo para sempre. Ainda agora Isabel tinha nascido, todo aquele êxtase e entusiasmo do incógnito e indefinido futuro estava dentro de mim e mesmo assim, os meus pensamentos antigos não foram varridos. Teria errado? Iria fazer Isabel sofrer? Teria feito mal em querer reproduzir naquela gentil criança todos os meus sonhos irrealizáveis? E porquê? Por que é que continuava a pensar nas mesmas coisas? Não teria já passado tempo suficiente? Não teria já acumulado experiências de vida em número bastante para me fazerem esquecer tudo o que vivi? Seria impossível arrancá-la da minha cabeça quando ela tinha saído com tanta pressa e facilidade da minha vida? Pensava que Isabel ia substituí-la, até lhe dei um nome igual...Agora, em vez de uma Isabel tinha duas...
Adormeci sem sequer me recordar que devia passar pelo hospital.
2 comentários:
Nem sei o que sinto neste momento. Se por um lado tenho alguma simpatia por este homem, por outro lado abomino a vida de falsidade que ele criou á sua volta e como ele quer projectar outra pessoa na filha recém nascida.
Parabéns mais uma vez pelo incrivel trabalho. Tens a capacidade que mexer com os sentimentos mais profundos do leitor e colocá-lo numa posição crítica e de tomar partido por uma das partes. Pelo menos é assim que eu me sinto ao ler.
A frieza com que ele retrata o quarto do casal, por oposição á excitação com que descreve o quarto da filha são impressionantes. Como se fossem os símbolos da antagonia entre Helena e Isabel. Fantastico. Acho que ao ler se tem as mesmas sensações descritas por ele.
Parabéns mais uma vez. Mal posso esperar pela próxima parte.
Abraço
Kangas
Ahhhh! Afinal havia outra.
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